quinta-feira, agosto 26, 2004

Aprender a surfar

Se tem uma coisa que eu preciso fazer antes de voltar a Itacaré é aprender a surfar, afinal de contas, a pequena vilinha sempre viveu em função do esporte das ondas. Só recentemente o turismo chegou com força para tentar fazer frente aos caras de cabelo parafinado, mas ainda vai demorar muito tempo para que o povo da prancha desista do seu paraíso na terra.
Por mais improvável que seja, tenho o compromisso de conseguir ficar em pé na prancha antes de pisar novamente naquelas terras.

Uma das nossas mais agradáveis surpresas da viagem veio com a luz do sol: a pousada Papaterra era muito legal, bonita e bem decorada. A piscina era convidativa e o jardim muito bem cuidado. Dava vontade de pegar uma cadeira e passar o dia inteiro ali, mas infelizmente tínhamos outros compromissos ainda naquele dia. Quem sabe na volta?


Pousada Papaterra Posted by Hello


As bananeiras do jardim Posted by Hello

O café foi bastante exclusivo: só nós dois e mais dois solitários em um salão bem grande, com direito a piano e balcão de bar.
Não havia nada de espetacular, mas o benefício de viajar na baixa temporada foi sentido logo de cara: o tratamento foi VIP e não conseguimos pedir nada antes do garçom já estar nos servindo ovos mexidos e outras delícias.
Os bolos estavam especialmente gostosos e saímos de lá bastante satisfeitos.

Nossa idéia era fotografar os restaurantes da noite anterior e visitar alguma das praias próximas. Não tínhamos idéia da direção a seguir e por isso tivemos que comprar um mapinha e pedir ajuda aos universitários.
Acabamos decidindo pela praia de Itacarezinho por várias razões: era a única que permitia a chegada de carro, era bastantes próxima da cidade e ficava na estrada para Ilhéus, que teríamos que pegar para retomar o caminho para o norte.
Nosso destino naquela dia era Morro de São Paulo e achavamos que saindo cedo da pousada evitaríamos o desgaste de correr contra o relógio.
Mas sabíamos como estávamos enganados.


Restaurante Mar e Mel Posted by Hello


Restaurante Dedo de Moça Posted by Hello

Antes de pegar a estrada para Itacarezinho, demos uma volta na praia da Concha e apreciamos o farol antigo lá no canto direito.
Minha querida irmãzinha de Blumenau havia me recomendando um passeio pelo braço de terra que leva até o farol, mas infelizmente não tínhamos tempo para correr o risco de ficarmos ilhados com a mudança da maré: o tal braço de terra é bem estreito e qualquer subida das águas obriga um mergulho de pés descalços para permitir a escapada dos incautos.
Não tínhamos nem tempo nem espírito de aventura, por isso decidimos ir logo para Itacarezinho.


O farol da Praia da Concha Posted by Hello

No caminho para a praia, notamos uma placa que apontava a BR101 a pouco mais de 40km.
Era uma realidade bem diferente dos 100km que tínhamos calculado dando a volta por Ilhéus. Após uma rápida conferência conjugal, decidimos que na volta arriscaríamos esse caminho e tentaríamos ganhar tempo ao rodar menos da metade do planejado.
Mal sabíamos que isso nos geraria um doloroso arrependimento, mas àquela altura ainda estávamos mergulhados na idéia e na visão da bela praia de Itacarezinho.

A praia não era do estilo que a Sô, minha ex-colega de Vanzolini curte: não era deserta, não era selvagem e nem tinha montanhas aqui e ali. No lugar da natureza intocada havia uma sucessão interminável de coqueiros, uma mega barraca-restaurante com mesas, sombra, comida e bebida e um monte de turistas (a maioria gringos) aprendendo surfe e danças afro.
Era até engraçado ver as branquelas tentando acompanhar a professora com o jeito desengonçado que lhes é peculiar, mas tenho certeza que todo mundo estava ser divertindo muito.


Praia de Itacarezinho Posted by Hello

A cada grupo novo de turistas que chegava, a sequência de risos, fotos e filmagens se repetia. Todos ficavam espantados de início e entravam na dança pouco depois.
Até nós guardamos algumas imagens e arriscamos alguns passos, mas como já era hora de partir, achamos melhor não revelar ao mundo nossos dons artísticos.
Uma porção de peixes, uns sucos e um xixi depois, lá estávamos nós de volta à estrada.

Seguimos de volta para Itacaré para pegar o "atalho" que recém descoberto.
Poucos minutos depois descobrimos que a tal estrada era de terra e paramos alguns segundos para pensar. Na plena ingenuidade, achamos que a estrada não estava tão ruim e que valia a pena economizar distâncias.
Até que as fazendas de coqueiros do começo da estrada valeram o esforço. A gente nunca havia visto algo parecido e acabamos parando várias vezes para fotografar e apreciar a paisagem.


Fazenda de coqueiros Posted by Hello

Quando decidimos pegar a estrada para valer, o sofrimento começou de vez: foram 90 minutos de sacolejos, buracos e stress. Ao invés de ganharmos 50km, acabamos perdendo 30 min e nossa folga foi para o espaço.
Quando finalmente chegamos à BR101 na altura da cidade de Aurelino Leal, eu já estava mordendo o volante e a minha mineira não falava nada com medo de ser mordida.

A estrada estava ruim, não tínhamos certeza do caminho a seguir e o tempo estava se esgotando para pegar o barco rápido em Valença. Tudo estava conspirando contra a gente e certamente a minha mineira não mereceu o tratamento que lhe dei.
Ela não tinha culpa de termos feito uma escolha errada.

Na altura da cidade de Travessão, decidimos seguir a dica de um morador do local e pegamos a BA001 que passava por Camamu (porto de acesso à Península de Maraú e à nossa desejada Taipus de Fora) e Valença.
Correndo como doidos, eu acabei causando um enjôo monstro na minha mineira ao pedir que ela arrumasse as coisas no carro para ganhar tempo assim que chegássemos a Valença. Apesar do benefício posterior, a possibilidade de ter meu carro "lavado" por dentro e a minha mineira semi-inutilizada não me agradou nem um pouco.

Chegamos a Valença 10 minutos antes da partida da lancha e para não perder mais tempo, paramos em um posto e pedimos informações. Ó que se seguiu foi digno de comédia pastelão: um "guia" mirim com camisa do Palmeiras saiu correndo de bicicleta para nos levar até o porto. Tenho certeza que eu mereci um par de multas com as minhas manobras, mas àquela altura tudo valia.
O porto surgiu faltando 2 minutos para as quatro da tarde e ainda tínhamos que tirar as malas e guardar o carro. Foi hilário ver os "aspones" do porto invadindo meu carro e levando cada um uma mala. A minha mineira estava explodindo de vontade de fazer xixi, mas mesmo assim aguentou firme para organizar a entrada da bagagem no barco.

Tive que correr para não ser deixado para trás depois de guardar o carro.
Paguei três diárias adiantadas e saí como um doido para rever a minha companheira de micos. Quando entrei no barco as amarras já haviam sido soltas e ela estava com cara de assustada. Nem consegui contar que tive que distribuir várias notas de R$ 1,00 para "agradecer" a ajuda do "guia" e dos "aspones": a gente se sentou em lados opostos da lancha.
Uns 30 minutos depois chegamos a Morro e contratamos um carregador que suou para vencer as ladeiras e nos levar até a Pousada das Amendoeiras na Terceira Praia.

Acho que os R$ 5,00 que pagamos por cada mala foram nosso melhor gasto do dia. Se andar naquelas areias sem bagagem já era complicado, imagine empurrando um carrinho de mão lotado de malas!!
Um bom banho e um descanso depois, acabamos perdendo o sol e a oportunidade de conhecer a ilha logo na chegada.
Como não tínhamos pressa, decidimos sair só na hora de comer e tentar aproveitar o luau da Segunda Praia.

Para coroar um dia de stress e cansaço, fomos das uma volta no Centro e decidimos comer uma lagosta no restaurante Ponto de Encontro. Novamente ficamos decepcionados já que o prato era mal servido e mal temperado. Acabei perdendo uma grande chance de impressionar a minha mineira com uma comida chique.
Meia refeição e uma decepção depois, voltamos para o hotel e decidimos deixar o luau para a noite seguinte.
Nosso plano era passar três noites em Morro e por isso não havia pressa para nada.

quarta-feira, agosto 25, 2004

Mudando os planos

O amanhecer em Prado foi tranquilo e o café pobre.
Nos arriscamos em uma banana de preparação desconhecida e não fomos muito felizes. O resto estava razoável o suficiente para segurar nossa onda até a próxima parada.
Por falar em próxima parada, o roteiro da nossa viagem começou a ser mudado exatamente nesse dia.


Hotel Amendoeiras Posted by Hello

Como estávamos bem próximos de Porto Seguro, achamos melhor retirar a Costa do Descobrimento dos nossos planos e seguir direto para o norte da Bahia. Era uma forma de tentar ganhar tempo depois de termos dormido uma noite a mais no Sul da Bahia.
Pelo nosso planejamento inicial, o próximo destino seria Morro de São Paulo, mas acabamos concluindo que não daria tempo de pegar a lancha rápida para chegar até a ilha.
Nos restou Itacaré.
Não adiantava correr ou acabaríamos deixando metade da suspensão nas terras de ACM.
Sendo assim, relaxamos e fomos para a antiga vila de surfistas transformada em boom turístico.

Mais uma vez encontramos uma estrada esquisita, mas desta vez os buracos eram menos numerosos e menores. Depois do Rio Jequitinhonha dá a impressão de ter entrada em outro país: a estrada vira um tapete e os caminhões vão ficando para trás.
Deu até vontade de tentar chegar em Morro, mas já tínhamos colocado na cabeça que iríamos até Itacaré e não quisemos mudar de idéia.
Saímos da 101 na altura de Itabuna e seguimos à direita em direção à Costa do Cacau.
Infelizmente a estrada nos levou a passear um pouco dentro de Ilhéus, mas até que não nos perdemos muito até encontrar a estradinha para Itacaré. No trajeto acabamos vendo algumas paisagens que o Jorge Amado acabou transformando em personagens e ficamos imaginando por onde a Gabriela teria caminhado. Quando o devaneio chegou ao Turco Nassif, acelerei mais e deixei Ilhéus para trás.


Jorge Amado Posted by Hello

Mais uma vez encontramos uma estrada simples, mas muito bem conservada. Ficamos com a impressão de a qualidade do asfalto é diretamente proporcional ao interesse do governo (ou de quem quer que seja) na exploração turística e no retorno financeiro da região. Não deu para entender como eles não fazem isso com Porto Seguro, mas aí lembramos que estávamos no Brasil e tudo ficou mais claro.

Quase chegando a Itacaré avistamos a entrada para o Txai Resort. Foi por um tris, mas eu consegui salvar o nosso orçamento da tentação de gastar R$500,00 por noite neste paraíso hoteleiro. Quem sabe da próxima?

Já dentro da cidade, acabamos nos perdendo um pouco e demorando uns 20 minutos para chegar até a Pousada Papaterra.
Não conseguimos ver muita coisa das instalações, mas só o fato de estarmos em um lugar limpo e confortável já valia. Como aquele havia sido um dos dias mais tranquilos até então, resolvemos relaxar antes de dar uma volta pela cidade.
Dormimos como anjos, com direito a mosquiteiro na cama e um chuveiro que parecia de clube.

Quando a sede bateu, fomos dar umas voltas pela cidade.
Acabamos no bar restaurante Mar e Mel, bem pertinho da pousada, ali na praia da Concha. Como estávamos fora de temporada, o número de garçons era maior que o de clientes, mas ficou a impressão de que a estrutura do lugar deve facilitar a ferveção no alto verão.
Não curtimos os preços (altos) da comida e acabamos tomando só umas cervejas e saindo para explorar outros lugares.

Acabamos ao lado da igrejinha em um lugar muito charmoso chamado Dedo de Moça.
O lugar era um paraíso para decoradores e arquitetos. Cada pequeno detalhe parecia planejado para agradar o cliente enquanto ele espera a comida. As mesas, os pratos, as luminárias e até o chão estavam brilhando de novos.
Meus detalhes preferidos foram a estante com artesanatos diversos e a decoração da porta dos banheiros. Tudo muito temático, exótico e colorido.


O meu preferido Posted by Hello


O banheiro masculino Posted by Hello

O fato de sermos atendido por uma das donas, uma menina paulista que estudou gastronomia e decidiu fazer parte da empreitada com o pai (o financiador) e a irmã (a administradora). Com a ajuda dela, escolhemos uma moqueca feita com pouco dendê o que não comprometeria nosso sono.
Comemos, bebemos, rimos, tiramos fotos e saimos maravilhados. Bêbados, mas felizes.
Voltamos para a pousada e dormimos um sono gostoso e tranquilo.
No dia seguinte teríamos que encarar a travessia para Morro, mas ainda não sabíamos que esse seria o menos dos nossos problemas.

terça-feira, agosto 24, 2004

Finalmente a Bahia

Foi dureza acordar cedo no nosso primeiro dia na Bahia, mas a vontade de ver as baleias de perto era bem maior que o sono e não demorou muito para que estivéssemos sentados à mesa do café tentando repor o vácuo nos nossos estômagos.
Sinceramente, eu estava meio com medo da reação das minhas tripas ao longo passeio de barco que tínhamos pela frente.
O número de estórias de enjôos e showa de horror era muito grande para ser ignorado.
Com essas caraminholas na cabeça, acabei comendo pouco e caprichando mais nos líquidos para o vexame ser menor.


Pousada Farol Abrolhos Posted by Hello

Infelizmente para nossas fomes, a melhor coisa do café da hotel era a vista do rio Caravelas.
Mas como não estávamos lá para comer, aceitamos a situação e seguimos para a agência de viagens que organizaria o passeio.


O rio Caravelas Posted by Hello

Como já era de se esperar em uma viagem à Bahia, o horário marcado para o passeio não foi cumprido e tivemos que esperar um monte até que todos os passageiros aparecessem. Havia gente de todo tipo, de uma família alemã com meninas lindas de morrer até uma dupla de senhoras espanholas que achou o máximo a Costa do Descobrimento.
O barco era um catamarã bem grande para meus padrões, mas éramos poucos passageiros e o conforto não foi sacrificado em nenhum momento.
Durante quase 1 hora e meia a gente se alternou entre as espreguiçadeiras da parte de cima e os bancos da parte de baixo. O trajeto é meio chato, mas a expectativa pela visão das baleias fazia o tempo passar bem mais rápido.

A primeira visão do Arquipélago de Abrolhos é um pouco decepcionante: as ilhas surjem no horizonte e não parecem grande coisa. Nem mesmo a aproximação lenta do barco resolve muito esse problema.
Só mesmo quando passamos bem ao lado das duas ilhas principais é que a gente consegue ver as colônias de aves que moram por lá.


Abrolhos Posted by Hello

O mais famoso habitante das ilhas é o Atobá. Famoso e numeroso já que é preciso tomar muito cuidado para não se aproximar demais dos ninhos e acabar sendo bicado por um daqueles bicos enormes.


Ninhos de atobás Posted by Hello

Depois de um passeio rápido na única ilha aberta à visitação de turistas (e cujo nome eu não me lembro), nós fomos para uma baía da ilha da Marinha e fizemos um divertido mergulho com snorkel.
Demoramos um monte para nos acostumarmos com a máscara e com o tubo, mas depois de uns minutos ja estávamos dominando a técnica e curtindo um monte de peixes e corais.
Quer dizer, tentando, já que a minha miopia não me permitia distinguir tanta coisa no meio daquele ambiente não tão iluminado.
A minha mineira não queria mais sair da água, mas a fome acabou convencendo-a a voltar para o barco e repor as energias com a refeição leve preparada pelos marinheiros.
Quando digo que a refeição era leve estou sendo bastante otimista já que o que tínhamos para comer eram alguns sanduíches com frios, bolachas e docinhos.
Como não estávamos lá para comer bem, nos deliciamos com cada bolacha de água e sal que estava disponível.

A viagem de volta não foi muito diferente da ida: um marzão sem fim, um monte de gente tentando não se queimar durante o bronzeamento e uma expectativa enorme para ver mais baleias.
O máximo que havíamos visto na ida eram jatos de água e caudas e todos queriam mais.
Talvez fosse esperar demais, mas todos queriam ver os saltos e piruetas que apareciam na TV. Infelizmente, o sentimento de frustração estava começando a dominar a todos e já não era absurdo pensar que o passeio havia acabado ali, na saída de Abrolhos.
Se fosse assim, não teria valido a pena já que poderíamos ter feito exatamente as mesmas coisas sem precisar navegar durante uma hora e meia.

O frisson foi geral quando alguém gritou e apontou para algum lugar no horizonte: haviam sinais de saltos e de água espirrando para todo lado. Mais do que depressa fomos naquela direção e, para nossa alegria, a Jubarte não se fez de rogada e continuou a pular por mais uns 10 minutos depois que a alcançamos.
Era impressionante ver um bicho daquele tamanho fazendo aquelas coisas. Nem dava tempo para fotografar e segurar o queixo ao mesmo tempo.
Aquilo era tudo o que a gente queria ter visto desde o início e finalmente havíamos conseguido.


A própria estrela Posted by Hello

Depois dos saltos, encontramos uma mãe se exibindo ao lado do filhote e mais alguns bichinhos exibindo caudas e barbatanas.
O último que vimos pareceu nos acenar em despedida e ajudar a deixar o sorriso estampado em nossos rostos durante muito tempo.


O tchauzinho da Jubarte Posted by Hello

Só para fechar o passeio com chave de ouro, o Astro Rei resolveu dar um último show e nos presentear com uma saída espetacular.
Era o fim de um dia cheio de surpresas e de sonhos realizados.


O Rei indo embora da Bahia Posted by Hello

Voltamos para Caravelas por volta das 18:30 o que nos impediu de seguir viagem para Porto Seguro. Decidimos ir até Prado que ficava a poucos quilômetros dali e ficar em uma pousada recomendada pela minha cunhada.
O Praia Hotel Amendoeiras era mais simples e antigo do que eu pensava, mas estava perfeito para a nossa necessidade de banho e repouso.

Depois de satisfazer as necessidades higiênicas, partimos para as biológicas e tivemos a última surpresa agradável do dia: o restaurante Tarrafas.
O peixe que comemos lá era divino e a gentileza do atendimento compensou até a falta de gelo da cerveja.
Voltamos para casa muito felizes e cheios de vontade de continuar as aventuras bahianas.

segunda-feira, agosto 23, 2004

Coisas de família

No dia do episódio final de Sex and the city (que minha irmã cineasta achou apenas mais ou menos) eu acordei em Vila Velha, na casa da minha cunhada.
Como havíamos chegado tarde no dia anterior, ganhamos o direito de acordar igualmente tarde e tivemos que improvisar um café da manhã para não passar em branco.
Tínhamos a intenção de sair cedo, mas a cara de pidão do sobrinho da minha mineira e a voz melosa da minha cunhada acabaram por nos convencer a ficar mais um pouco e só sair depois do almoço.
Isso praticamente nos obrigava a pegar a estrada à noite, mas não havia o que fazer.

Saímos de Vila Velha por volta das 15:00hs. As baleias do sul da Bahia nos esperavam.
Vale dizer que antes de sair do Espírito Santo entramos em contato com uma agência de viagens em Prado e fizemos a reserva para o passeio a Abrolhos no dias seguinte.
Isso facilitou muito a nossa vida e é muito recomendável.

Logo depois de Vitória, a uns 60km, avistamos um maravilhoso portal japonês praticamente no meio da estrada. O torii estava cercado por um jardim de pedrinhas brancas e marcava a entrada de um mosteiro zen budista.
Infelizmente não tínhamos tempo para parar e visitar o lugar, mas ficou o registro e o compromisso para a volta.

O torii Posted by Hello

Durante uma parada para abastecimento e xixi em São Mateus, no norte do Espírito Santo, engatamos uma conversa com a atendente do posto que se empolgou quando mencionamos Itaúnas e o Falamansa. Ela nos contou que costumava pagar R$ 5,00 para ver a banda tocar nos bailes de Itaúnas e que se espanta com o sucesso que eles alcançaram.
Segundo ela, ainda existem várias bandas do gênero por lá e vale a pena a visita, desde que o turista não se importe com estradas de terra e instalações simples.

Nosso primeiro contato com a Bahia não poderia ter sido mais traumático: as estradas estavam calamitosas e todo o relaxamento que conseguimos na casa da cunhada foi embora com o stress para não despencar naquelas crateras no meio da estrada.
Nossa sorte foi que nos trechos mais destruídos sempre havia um caminhoneiro experiente para nos avisar com antecedência e para nos mostrar a melhor trilha a seguir.
Com os nervos à flor da pele, chegamos a Caravelas por volta das 21:30 e fomos direto para a pousada Farol Abrolhos Iate Clube. Na escuridão da noite bahiana não conseguimos ver muito das instalações do lugar, mas o interior do quarto era tudo o que a gente precisava para aquele momento. Havia uma cama razoável, um banheiro limpo e uma TV para embalar o sono. Para que mais?

Terminamos a noite jantando no restaurante Carenagem que serviu uma comida passável. Aqui também era tudo o que a gente precisava.

Quando fomos dormir tínhamos em mente que até aquele momento havíamos vivido apenas um trailer do que viria e que nossas férias começariam mesmo no momento em que encarássemos as Jubarte!

domingo, agosto 22, 2004

O segundo dia

A manhã em Petrópolis começou preguiçosa e ensolarada. Não tivemos coragem de abrir a porta de madeira que dava para a jardim com medo de curtirmos demais o lugar e perder nossa vontade de seguir viagem.
A pousada era tão legal que esse tipo de risco era real e imediato.

O café da manhã voltou a nos impressionar pela personalização: cada mesa estava posta com a indicação perfeita das necessidades das pessoas que estavam hospedadas nos quartos ou nos chalés. A nossa, obviamente, contava com dois jogos de louças e talheres e as demais, além de maiores, estavam bem mais equipadas.
Como fomos os primeiros a acordar, não conseguimos saber se a Roberta havia acertado em todas as mesas, mas àquela altura isso já era irrelevante.
Não sei se ela consegue fazer isso durante a alta temporada, mas certamente é um detalhe que impressiona e cativa.

Depois do café, pegamos um mapa da cidade e saímos para conhecer as atrações imperiais. Havíamos decidido ficar um pouco mais na cidade e atrasar a partida para Vila Velha.
Deixamos o carro no Centro e começamos a nos planejar quando chegamos à praça central da cidade. Segundo o mapa, de lá era possível chegar a pé a uma série de atrações localizadas no Centro. Como já havíamos rodado como doidos no dia anterior, aquilo nos pareceu uma benção.

O nosso primeiro objetivo era visitar o Museu Imperial já que imaginávamos que seria o mais demorado e bonito. Infelizmente a Roberta havia nos dado a informação correta e o museu só abria às 11:00.
De lá fomos para a Catedral da cidade, que infelizmente estava em reformas. Não conseguimos entrar mas vimos belos vitrais e detalhadas esculturas na fachada.


A Catedral Posted by Hello

Ao lado da Catedral ficava a casa da Princesa Isabel, mas como ela não estava aberta à visitação, não gastamos muito tempo na fachada.
No caminho para a Casa de Santos Dummont passamos pelo palácio dos Presidentes e por outras construções igualmente históricas.
A casa do inventor do avião ficava em um barranco e ao lado havia um belo relógio de flores. Tive que reunir bastante ânimo para conseguir subir os degraus que separavam a rua da entrada da casa, mas até que valeu a pena. Não sei como ele conseguia viver em um lugar tão pequeno e apertado, mas dava mesmo a impressão de que ali havia sido o lar de um cara à frente do seu tempo.


Casa de Santos Dummont Posted by Hello

Como não poderia deixar de ser, a casa tinha um belíssimo exemplar de escada Santos Dummont, aquela onde o degrau só permite a colocação de um dos pés. Ainda bem que ela estava fechada ou mais de um desavisado acabaria despencando lá de cima.


A tal escada Posted by Hello

Com toda essa caminhada, o tempo já havia passado e já estava na hora de voltar ao Museu Imperial. Isso atrapalharia ainda mais nossos planos de saída da cidade, mas achamos que valeria a pena já que dificilmente voltaríamos àquela cidade.


O Museu Imperial Posted by Hello

Apesar de se parecer muito com o Museu do Ipiranga que conheci na infância, o Museu Imperial é muito organizado e preservado. Infelizmente não pude tirar fotos dos aposentos onde D. Pedro fazia suas necessidades e nem dos berços dos filhos que morreram pouco depois de nascerem.
Em geral, o museu conta a rotina da família e as formas de lazer que eles aproveitavam. Tudo muito luxuoso e curioso.

Saímos correndo do museu pois já era mais de meio dia e tínhamos que deixar a pousada.
A Roberta, simpática como sempre, nem ensaio alguma cobrança adicional e nos orientou sobre a melhor maneira de pegar a BR rumo ao Espírito Santo.
Deixamos Petrópolis meio decepcionados com o que encontramos mas felizes por termos conhecido alguns lugares que participaram da estória do país de alguma maneira.
Tudo estaria dentro do planejado se não tivessemos cometido um erro crucial: pegar de volta o cartão de crédito com o qual pagamos a conta.
Esse deslize nos custou um retorno de 70km (foram 140kn a mais no total) e três horas de atraso no programa.
Como estávamos de férias, o episódio teve seu impacto minimizado naquilo que foi possível e seguimos viagem. A casa da irmã gêmea da minha mineira nos esperava.

Infelizmente, devido ao atraso, acabamos pegando parte da viagem sem luz natural e sem conhecer a estrada. Vale lembrar que aqui também optamos por fugir do Rio e novamente ficamos com a impressão de que não valeu a pena devido às condições das estradas cariocas.
Entre mortos e feridos, Vila Velha nos recebeu novamente de braços abertos e bacalhau na panela. Santo talento culinário do marido da cunhada!

sábado, agosto 21, 2004

O primeiro passo

A aventura nordestina começou em um destino bem pouco glamouroso: a Rodoviária Tietê.
Tive que estar lá antes das 06 da matina para esperar a minha mineira que chegou cheia de disposição e com uma surpresa muito agradável: um cabelo bem curtinho, quase "joãozinho".
Desconfio que ela fez isso de propósito, só por que eu caio de quatro pela Mariana Godoy e acho lindo moças com cabelos bem aparadinhos na nuca.


Mariana Godoy Posted by Hello

Não rodamos muito até que parássemos pela primeira vez. Na verdade, mal saímos da Marginal Tietê (e do seu surpreendentemente belo nascer do sol) e já paramos no último posto da Ayrton Senna antes do pedágio.
A necessidade de rabanadas era maior do que a vontade de viajar, portanto, lá fomos nós gastar uns 40 minutos tomando café e vendo o basquete olímpico na TV.
Umas 15 rabanadas depois, pegamos a estrada novamente e seguimos rumo à imperial Petrópolis.


Nascer do sol na Marginal Posted by Hello

Acho que aqui vale um parêntese: eu nunca fui especialmente apaixonado pela cidade dos Pedros, mas achei que valia a pena dar uma parada em um lugar que fosse mais ou menos no meio do caminho entre Sampa e Vila Velha. Como ainda não tive coragem de entrar no Rio dirigindo, acabei escolhendo o destino que me pareceu mais tranquilo.

A nossa segunda parada acabou sendo completamente inesperada: a minha mineira não se lembrava da proximidade entre a Catedral de Nossa Senhora Aparecida e a Dutra e não precisou muito para me fazer entender que deveríamos parar.
Ela não me pediu textualmente, mas aqueles olhinho grandes e meio chorosos como os dos desenhos japoneses acabaram minando qualquer argumento em contrário.


Catedral de Aparecida Posted by Hello

Com as orações em dia, seguimos a nossa bem pouco ordinária viagem.

Ao entrar na Campos do Jordão dos cariocas eu senti a falta de conhecer alguém que pudesse ter me orientado melhor: a cidade possui vários distritos e todos eles estão espalhados em uma grande fila que vai fazendo um zigue zague ao redor da estrada.
Quer dizer, para quem vem do Rio até que é mais fácil: basta pegar a entrada principal e seguir em frente! Mas para quem vem do outro lado, lá do distrito de Itatiaia, a coisa pega e a desorientação é total.
Fica a dica: ao escolher a pousada, certifique-se da localização do distrito e prepare-se para rodar muito.

Depois de duas horas rodando pela cidade, finalmente chegamos à Pousada Mata Atlântica, um lugar delicioso, cercado de árvores e com um silêncio assustador.


Pousada Mata Atlântica Posted by Hello

Para chegar até lá é preciso localizar um posto chamado Posto Bingen, que deve estar lá desde a morte do último dos Pedros.
À partir do postinho é bem fácil chegar até o lugar e encontrar a simpática e bela Roberta, que cuidará de tudo para fazer da sua estada uma verdadeira meditação em movimento.
A sala de leitura da pousada era um show à parte e a hera entrando por cima das portas de madeira e invadindo o salão de jantar nos deixaram maravilhados.


A hera e a sala de jantar Posted by Hello

Foi a mesma Roberta que nos deu um monte de dicas e que sugeriu que fôssemos até o Museu Imperial assistir ao espetáculo "Som e Luz", uma série de vídeos e luzes que eram projetados em uma fonte de água e que contavam a estória do Império.
A idéia nos pareceu muito boa, mas como ainda era cedo, resolvemos tirar um cochilo para repor as energias.
A tal fechada de olhos durou mais do que esperávamos: acordamos às 3 e meia de manhã, meio revoltados com o inicio das nossas férias, mas como não havia mais nada a fazer, viramos para o lado e continuamos a dormir.

Já que estava tudo danado mesmo, para que perder uma boa noite de sono em um lugar tranquilo e romântico?