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sexta-feira, setembro 29, 2006

O começo da volta

Acordamos às 05:30, tomamos banho, comemos, nos despedimos da minha sobrinha e pegamos o táxi para a rodoviária.

Para nossa surpresa, não havia nenhuma loja da empresa Pullman del Sur, o que nos obrigaria a comprar as passagens para Santiago lá em Villa Alegre.

Ao nosso lado no ônibus veio um grupo de jovens americanos, provavelmente na mesma balada de férias que a gente. Eram quatro meninas (surpreendentemente bonitas) e dois caras, sendo que um deles estava fazendo aniversário, o que rendeu um falatório interminável durante a viagem.
Os americanos desceram na estação de Chillán e nós no trevo de Villa Alegre, de onde tomamos um táxi e encontramos com a minha avó, que nos serviu café da tarde e uma boa conversa.
Logo depois, saímos com a minha avó para comprar as passagens e depois para visitar a igreja histórica, que infelizmente estava fechada.

Mais tarde chegaram meu tio e moça que ajudava a minha avó para se juntar a nós na conversa até a hora de dormir.

Gastos:
Táxi - $ 3000,00
Táxi - $ 2000,00
Passagens - $ 8000,00

sábado, setembro 16, 2006

Paz

Queria dizer que já estava cansado de não fazer nada na casa da minha avó, mas felizmente isso não era verdade.
Eu estava adorando o processo de engorda que significava acordar tarde e fazer cinco refeições por dia.
Melhor que isso, só em um Royal Caribbean da vida.

O sábado não foi diferente e contou com a presença de outro tio que havia chegado de Santiago durante a madrugada. Só o encontramos na mesa do café, o que garantiu a comilança por bem mais do que uma hora.
O assunto principal da conversa, obviamente, foi comida e terminamos o café com o compromisso de fazer um risoto de calabresa para o almoço.

Para queimar algumas das milhares de calorias ingeridas no café da manhã, fomos dar uma volta na velha praça da minha infância, agora um pouco mais renovada e já sem a fonte, que já havia significado alguns acidentes nos meus primeiros cinco anos de vida, e o canhão.
No lugar deles, um cimentado marcando o centro da praça.


O centro da praça



O RG da praça


Uma das poucas novidades do local era uma homenagem ao poeta-mor da terra, Pablo Neruda.
Na verdade, a homenagem não estava bem na praça, mas sim a poucos metros dela, na calçada da agência dos correios.
O "Tintero de Neruda" era uma reprodução em concreto e metal de um pote de tinta e de uma pena que o poeta devia usar para compor suas obras.
Apesar do resultado meio duvidoso, achei que valeu pela intenção e pela homenagem.


O tinteiro


Como já é tradição nas vezes em que visito Villa Alegre, antes de voltar para a casa da minha avó, fomos ver a Casa Grande, que ficava ali pertinho.
Ela parecia melhor e mais bem cuidada do que em 2004.
Melhor para minhas memórias. Vivi muita coisa boa nessa casa, mas não tive coragem de pedir licença ao funcionário da Prefeitura e entrar. A casa já não era mais nossa, digo, da família, há alguns anos, mas as memórias ainda nos pertenciam e achei que entrar lá poderia mudar isso.
Optei pela segurança da distância e só tirei algumas fotos e contei algumas histórias para a Minha Mineira. Acho que algumas delas não eram lá muito verdadeiras, mas ela não se importou nem um pouco.


A Casa Grande


Antes de voltar para casa e esquentar a barriga no fogão, tiramos algumas fotos de uns vasos gigantes e de uns canteiros de flores que decoravam as calçadas. Tudo muito bonito e cuidado como não se vê muito aqui em Sampa.



O arroz não era arbóreo, a calabresa parecia mumificada, o fogão era mais velho do que eu e minha avó nos olhava de um jeito muito desconfiado, mas conseguimos vencer todos os desafios e preparamos o tal risoto para o almoço.
Não sei se foi desconfiança ou o que, mas por segurança, a minha avó preparou uma cazuela de pavo con chuchoca, algo como canja de peru com uma espécie de fubá, prato muito bom, por sinal.
Como para a gente não havia tempo ruim, comemos o risoto e a canja.
Vale registrar que minha velha avó ficou só na sopinha.

Depois de um sono rejuvenescedor, resolvemos caminhar um pouco até uma das entradas da cidade e visitar meu velho tata (avô) no cemitério local.
Nem me lembrava quantos anos haviam se passado desde a última visita, mas me senti bem percorrendo aquele caminho bonito e simples e localizando a gavetinha onde o corpo dele havia sido colocado quase 30 anos antes.
Sim, por que dele ali só havia o corpo. O resto devia estar em alguma vinha do Céu, cuidando da produção para algum figurão da Comissão Técnica do Céu.
De vez em quando sinto que ele segura as barras que não deixo ninguém mais tocar e relaxo bastante.
Gracias, Tata.



Na volta para casa, algumas fotos do pôr-do-sol e da igreja local, declarada monumento nacional alguns anos antes.





Fomos dormir assistindo ao primeiro Exterminador do Futuro e pensando na viagem e no encontro com a minha irmã e os sobrinhos.
Concepción e o Sul nos esperavam, mas sentiríamos saudade da velha e boa Villa Alegre.
Da minha avó, não. Ela estaria comigo durante toda a viagem, por isso não havia motivo para sentir saudades.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Desfiles

Dia de acordar tarde, comer muito e ligar para os parentes.
E de ir até Linares para comprar passagens de ônibus para Concepción, de comprar carnes no supermercado e de ver desfiles militares na rua principal de Villa Alegre, com os característicos capacetes nazi.
Para finalizar, noite de churrasco na casa dos tios, de comer exageradamente, de beber moderadamente e dormir suficientemente.
Um dia de vida boa e serena. Como deve ser.



Gastos:
Passagens - $ 6000,00
Pedágio - $ 500,00

quinta-feira, setembro 14, 2006

Festa do interior

Um dia dedicado inteiramente ao dolce far niente.
Nada de passeios, festas, jantares ou compras.
Apenas uma sequência arrastada de despertar-comer-descansar-conversar-ver TV-comer de novo-conversar de novo-comer de novo.

Minto.
O dia não teve só essas coisas maravilhosamente entediantes.
Tivemos também que ir até Linares para comprar as passagens para Concepción, o que consumiu cerca de duas horas do nosso dia.
Mas não dá para chamar uma viagem de 40 minutos em um carro ano 85 de emocionante, certo?

Ah, e teve também um passeio a pé, em meio a um vento cortante, para acompanhar uma apresentação de cueca, a dança nacional chilena, em frente ao museu histórico da cidade.
A cueca tem um apelo parecido ao do pagode aqui no Brasil, porém com um reconhecimento bem mais significativo, sendo até considerada como símbolo do país em qualquer evento oficial, dentro ou fora do país.
Como a apresentação era ao ar livre, buscamos um refúgio para a minha avó e ficamos, eu e a Minha Mineira, fotografando as danças que envolviam adultos e crianças, todos com as características roupas coloridas e sapatos pesados.
Tudo muito legal, mas depois da quinta dança, me cansei um pouco e só não fui embora por que a minha avó estava do outro lado.





Juntando a pitada de tédio e a boa quantidade de frio que fazia, resolvemos voltar para casa sem ver a exposição de cerâmicas que estava no museu.
Voltamos e já caímos no pipeño para esquentar o corpo e a alma.
Depois de vários copos, do jantar e de mais um monte de conversa, fomos para cama e dormimos como anjinhos.
Nada de TV e reality shows nessa noite.

Gastos:
Pão - $ 290,00
Sabonete - $ 260,00
Sorvetes - $ 1400,00

quarta-feira, setembro 13, 2006

A magia do colo

O dia pós-insolação começou cedo e não havia muito tempo para preguiça: nosso ônibus saía logo cedo e tínhamos que chegar logo à Rodoviária.
Tivemos pouco tempo para lamentar a falta de timing com relação às liquidações de inverno: elas haviam acabado duas semanas antes e nossas compras de casacões de neve ficariam para uma próxima oportunidade.

Antes de pegar a estrada, três observações:
1 - o país cheio de bandeiras (por conta das Fiestas Pátrias) tem um grande componente de patriotismo sim (que no Brasil eu só vejo em tempos de Copa do Mundo), mas tem também uma grande ajuda da legislação: as casas são obrigadas a ter uma bandeira na sua frente, sob risco do morador ser multado, e;
2 - Havia nos jornais e noticiários uma acalorada discussão sobre a distribuição gratuita da pílula do dia seguinte para meninas maiores de 14 anos. A distribuição da pílula se daria diretamente nas escolas, o que estava causando horror nas tradicionais famílias chilenas. Quem diria?
3 - mais uma sessão de besuntamento com hidratante para não sofrer demais durante a viagem com o ardor da pele queimada.

A viagem foi tranquila até Villa Alegre, assim como o trajeto de meia quadra entre o ponto de parada do ônibus e a casa da minha velha avó materna.
Chegamos lá, conversamos um monte e improvisamos um almoço de pamonha salgada e salada de alface e tomate: minha avó não tinha certeza do horário em que chegaríamos e não havia preparado nada mais consistente.
Mesmo assim, eu consegui matar a saudade do colo e fiquei tão perto da velhinha que a Minha Mineira deve ter sentido uma pontinha de ciúme.
Foi minha avó quem cuidou de mim quando eu tinha uns 3 ou 4 anos e minha mãe trabalhava fora da cidade. Ela passava vários dias longe de lá e com isso o caminho ficou aberto para a velhinha me ensinar a não comer gordura de bife, a comer pastel de choclo com açúcar e outras frescurinhas que me acompanham até hoje.
Bons tempos aqueles!



Villa Alegre de Loncomilla continuava praticamente como eu a havia deixado em 2004.
Indo um pouco mais além, ela não havia mudado muito desde 77 quando meu Tata morreu e eu parti.
Minha velha avó já não estava mais na casa grande e não havia mais a vinha para brincar, mas o lugar ainda guardava milhares de lembranças de um tempo em que só tinha que me preocupar em dar cabeçadas em quem me incomodava.
Isso incluía minha mãe e minha avó. Pobrezinhas.


Propriedade villalegrina típica


Enquanto minha avó e meu tio estavam em um funeral, nós fomos caminhando até a vinícola Carta Vieja para comprar algumas garrafas de tinto direto da fábrica. Isso não era estritamente necessário do ponto de vista prático, mas como o que importava era a simbologia, fomos felizes e acabamos sendo surpreendidos pela possibilidade de fazer um passeio pelas instalações, que não estavam a todo vapor devido à distância da época da colheita (fevereiro).
Eles não estavam lá muito preparados para receber turistas, mas ao mesmo fizemos um bom passeio e compramos algumas garrafinhas.


A sede da Carta Vieja



Vinhas em crescimento


Quando voltamos, minha avó e meu tio já estavam em casa, o que nos rendeu mais algumas horas de boa conversa.
Só paramos quando eu mencionei a vontade de tomar vinho pipeño, uma espécie de vinho caseiro pouco recomendado pelas autoridades sanitárias, mas muito apreciado no interior do país. Na mesma hora meu tio se ofereceu para ir às compras comigo.
Minha mineira ficou "conversando" com a minha avó e eu fui com ele até a casa de um amigo, notório distribuidor daquela maravilha líquida.

A expectativa era grande e foi plenamente satisfeita quando o proprietário, que se lembrava de mim com quatro anos de idade, nos serviu um par de copos como degustação.
A conversa estava boa e só conseguimos ir embora depois do quarto copo e só por que aproveitamos a chegada de um caminhão com uns 50 garrafões de 50 litros. Aquela compra massiva nos salvou do belo porre que já estava encomendado.

Voltamos, jantamos, vimos um programa de TV sobre a busca de esposas na Rússia por homens chilenos, nem sempre com resultados felizes, e fomos dormir.
O dia havia sido longo e o nível alcoólico favorecia a chegada de Morfeu.

Gastos:
Táxi - $ 5400,00
Vinhos - $ 10500,00