domingo, setembro 17, 2006

Sobrinhos

Mais uma vez nosso dia começou quase no fim da manhã e com um belíssimo café da manhã. A novidade foi meu tio, o irmão mais velho da minha mãe, que havia chegado durante a madrugada.
Fazia tempo que eu não o via, alguns anos para ser mais preciso, mas isso não contou muito para colocarmos o papo em dia.
Para melhorar ainda mais a aproximação, foi ele mesmo que nos levou até a rodoviária de Linares para pegar o ônibus para Conce. Na verdade, ele não foi sozinho: a namorada o acompanhou.
Aliás, depois fiquei sabendo que essa mesma namorada era motivo de reclamações por parte da minha avó: meu tio ficava com ela até altas horas e às vezes nem dormia em casa. Ciúme puro, já que meu tio tem mais de 60 primaveras nas costas, duas ex-mulheres e um neto.

Esperamos um pouco, conversamos mais e logo tomamos o caminho do Sul em um ônibus da empresa Biolinatal.
Paramos brevemente em Parral (terra de Neruda) e Chillán e não deu tempo de fazer muito mais do que tirar água do joelho e esticar os joelhos.
Durante a viagem colocamos em dia nosso conhecimento de cinema de terror com a nova versão de "A profecia" e com a primeira parte de "O grito", que não conseguimos ver inteiro. Achei meio forte para uma tarde chilena e para uma platéia de senhoras e crianças, mas preferi não reclamar para o motorista e correr o risco de ser abandonado na Panamericana.

Desembarcamos na rodoviária ao lado do Estádio Regional, ligamos para a minha irmã e tomamos um táxi para o bairro universitário, a poucos minutos dali.

Quase fiquei paraplégico ao levar as nossas malas escada acima no prédio da minha irmã, mas todo esforço e toda dor foram compensados pela visão dos meus sobrinhos.
Na verdade, a minha sobrinha morou na casa dos meus pais durante vários anos, o que gerou uma ligação forte entre nós, mas o menino havia nascido no Chile poucos meses antes, o que significava que estávamos nos conhecendo naquele momento. E foi muito legal. Não que ele tenha me amado logo de cara, mas não demorou muito até que ele passasse a confiar em mim e me deixasse babando ao distribuir um monte daqueles sorrisos banguelos tão característicos nos "girinos", logo depois que chegam ao nosso mundo.


O "girino" que eu não conhecia


Durante o almoço, conversamos bastante com a minha irmã e o pseudo-namorado (que vem a ser pai do meu sobrinho) e falamos sobre viagens ao Sul (Puerto Montt foi o nome mais citado), viagens a Termas de Chillán com meus tios e outras opções mais distantes e caras. Tudo vai depender dos preços e da disponibilidade nesta semana de Fiestas Pátrias. Provavelmente, nada acontece antes da quarta-feira, primeiro dia útil depois do feriadão.
Toda a conversa aconteceu ao som da Radioactiva (FM 105,5), uma rádio com muitos flashbacks, nenhum comercial e nenhuma locução. Ideal para quem só quer saber de música.

Quase me esqueço de mencionar o cardápio do almojanta: salmão ao forno, arroz e salada "de doente", que é como eu costumo chamar aquelas onde o sal não passa nem perto. Credo!

O final do dia teve outro momento "de colo": o sobrinho recém-apresentado dormiu no meu colo e ficou encostando a penugem da cabeça no meu braço. Quase deu vontade de ter o meu. Quase.

Gastos:
Telefone - $ 100,00
Táxi - $ 3000,00

sábado, setembro 16, 2006

Paz

Queria dizer que já estava cansado de não fazer nada na casa da minha avó, mas felizmente isso não era verdade.
Eu estava adorando o processo de engorda que significava acordar tarde e fazer cinco refeições por dia.
Melhor que isso, só em um Royal Caribbean da vida.

O sábado não foi diferente e contou com a presença de outro tio que havia chegado de Santiago durante a madrugada. Só o encontramos na mesa do café, o que garantiu a comilança por bem mais do que uma hora.
O assunto principal da conversa, obviamente, foi comida e terminamos o café com o compromisso de fazer um risoto de calabresa para o almoço.

Para queimar algumas das milhares de calorias ingeridas no café da manhã, fomos dar uma volta na velha praça da minha infância, agora um pouco mais renovada e já sem a fonte, que já havia significado alguns acidentes nos meus primeiros cinco anos de vida, e o canhão.
No lugar deles, um cimentado marcando o centro da praça.


O centro da praça



O RG da praça


Uma das poucas novidades do local era uma homenagem ao poeta-mor da terra, Pablo Neruda.
Na verdade, a homenagem não estava bem na praça, mas sim a poucos metros dela, na calçada da agência dos correios.
O "Tintero de Neruda" era uma reprodução em concreto e metal de um pote de tinta e de uma pena que o poeta devia usar para compor suas obras.
Apesar do resultado meio duvidoso, achei que valeu pela intenção e pela homenagem.


O tinteiro


Como já é tradição nas vezes em que visito Villa Alegre, antes de voltar para a casa da minha avó, fomos ver a Casa Grande, que ficava ali pertinho.
Ela parecia melhor e mais bem cuidada do que em 2004.
Melhor para minhas memórias. Vivi muita coisa boa nessa casa, mas não tive coragem de pedir licença ao funcionário da Prefeitura e entrar. A casa já não era mais nossa, digo, da família, há alguns anos, mas as memórias ainda nos pertenciam e achei que entrar lá poderia mudar isso.
Optei pela segurança da distância e só tirei algumas fotos e contei algumas histórias para a Minha Mineira. Acho que algumas delas não eram lá muito verdadeiras, mas ela não se importou nem um pouco.


A Casa Grande


Antes de voltar para casa e esquentar a barriga no fogão, tiramos algumas fotos de uns vasos gigantes e de uns canteiros de flores que decoravam as calçadas. Tudo muito bonito e cuidado como não se vê muito aqui em Sampa.



O arroz não era arbóreo, a calabresa parecia mumificada, o fogão era mais velho do que eu e minha avó nos olhava de um jeito muito desconfiado, mas conseguimos vencer todos os desafios e preparamos o tal risoto para o almoço.
Não sei se foi desconfiança ou o que, mas por segurança, a minha avó preparou uma cazuela de pavo con chuchoca, algo como canja de peru com uma espécie de fubá, prato muito bom, por sinal.
Como para a gente não havia tempo ruim, comemos o risoto e a canja.
Vale registrar que minha velha avó ficou só na sopinha.

Depois de um sono rejuvenescedor, resolvemos caminhar um pouco até uma das entradas da cidade e visitar meu velho tata (avô) no cemitério local.
Nem me lembrava quantos anos haviam se passado desde a última visita, mas me senti bem percorrendo aquele caminho bonito e simples e localizando a gavetinha onde o corpo dele havia sido colocado quase 30 anos antes.
Sim, por que dele ali só havia o corpo. O resto devia estar em alguma vinha do Céu, cuidando da produção para algum figurão da Comissão Técnica do Céu.
De vez em quando sinto que ele segura as barras que não deixo ninguém mais tocar e relaxo bastante.
Gracias, Tata.



Na volta para casa, algumas fotos do pôr-do-sol e da igreja local, declarada monumento nacional alguns anos antes.





Fomos dormir assistindo ao primeiro Exterminador do Futuro e pensando na viagem e no encontro com a minha irmã e os sobrinhos.
Concepción e o Sul nos esperavam, mas sentiríamos saudade da velha e boa Villa Alegre.
Da minha avó, não. Ela estaria comigo durante toda a viagem, por isso não havia motivo para sentir saudades.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Desfiles

Dia de acordar tarde, comer muito e ligar para os parentes.
E de ir até Linares para comprar passagens de ônibus para Concepción, de comprar carnes no supermercado e de ver desfiles militares na rua principal de Villa Alegre, com os característicos capacetes nazi.
Para finalizar, noite de churrasco na casa dos tios, de comer exageradamente, de beber moderadamente e dormir suficientemente.
Um dia de vida boa e serena. Como deve ser.



Gastos:
Passagens - $ 6000,00
Pedágio - $ 500,00

quinta-feira, setembro 14, 2006

Festa do interior

Um dia dedicado inteiramente ao dolce far niente.
Nada de passeios, festas, jantares ou compras.
Apenas uma sequência arrastada de despertar-comer-descansar-conversar-ver TV-comer de novo-conversar de novo-comer de novo.

Minto.
O dia não teve só essas coisas maravilhosamente entediantes.
Tivemos também que ir até Linares para comprar as passagens para Concepción, o que consumiu cerca de duas horas do nosso dia.
Mas não dá para chamar uma viagem de 40 minutos em um carro ano 85 de emocionante, certo?

Ah, e teve também um passeio a pé, em meio a um vento cortante, para acompanhar uma apresentação de cueca, a dança nacional chilena, em frente ao museu histórico da cidade.
A cueca tem um apelo parecido ao do pagode aqui no Brasil, porém com um reconhecimento bem mais significativo, sendo até considerada como símbolo do país em qualquer evento oficial, dentro ou fora do país.
Como a apresentação era ao ar livre, buscamos um refúgio para a minha avó e ficamos, eu e a Minha Mineira, fotografando as danças que envolviam adultos e crianças, todos com as características roupas coloridas e sapatos pesados.
Tudo muito legal, mas depois da quinta dança, me cansei um pouco e só não fui embora por que a minha avó estava do outro lado.





Juntando a pitada de tédio e a boa quantidade de frio que fazia, resolvemos voltar para casa sem ver a exposição de cerâmicas que estava no museu.
Voltamos e já caímos no pipeño para esquentar o corpo e a alma.
Depois de vários copos, do jantar e de mais um monte de conversa, fomos para cama e dormimos como anjinhos.
Nada de TV e reality shows nessa noite.

Gastos:
Pão - $ 290,00
Sabonete - $ 260,00
Sorvetes - $ 1400,00

quarta-feira, setembro 13, 2006

A magia do colo

O dia pós-insolação começou cedo e não havia muito tempo para preguiça: nosso ônibus saía logo cedo e tínhamos que chegar logo à Rodoviária.
Tivemos pouco tempo para lamentar a falta de timing com relação às liquidações de inverno: elas haviam acabado duas semanas antes e nossas compras de casacões de neve ficariam para uma próxima oportunidade.

Antes de pegar a estrada, três observações:
1 - o país cheio de bandeiras (por conta das Fiestas Pátrias) tem um grande componente de patriotismo sim (que no Brasil eu só vejo em tempos de Copa do Mundo), mas tem também uma grande ajuda da legislação: as casas são obrigadas a ter uma bandeira na sua frente, sob risco do morador ser multado, e;
2 - Havia nos jornais e noticiários uma acalorada discussão sobre a distribuição gratuita da pílula do dia seguinte para meninas maiores de 14 anos. A distribuição da pílula se daria diretamente nas escolas, o que estava causando horror nas tradicionais famílias chilenas. Quem diria?
3 - mais uma sessão de besuntamento com hidratante para não sofrer demais durante a viagem com o ardor da pele queimada.

A viagem foi tranquila até Villa Alegre, assim como o trajeto de meia quadra entre o ponto de parada do ônibus e a casa da minha velha avó materna.
Chegamos lá, conversamos um monte e improvisamos um almoço de pamonha salgada e salada de alface e tomate: minha avó não tinha certeza do horário em que chegaríamos e não havia preparado nada mais consistente.
Mesmo assim, eu consegui matar a saudade do colo e fiquei tão perto da velhinha que a Minha Mineira deve ter sentido uma pontinha de ciúme.
Foi minha avó quem cuidou de mim quando eu tinha uns 3 ou 4 anos e minha mãe trabalhava fora da cidade. Ela passava vários dias longe de lá e com isso o caminho ficou aberto para a velhinha me ensinar a não comer gordura de bife, a comer pastel de choclo com açúcar e outras frescurinhas que me acompanham até hoje.
Bons tempos aqueles!



Villa Alegre de Loncomilla continuava praticamente como eu a havia deixado em 2004.
Indo um pouco mais além, ela não havia mudado muito desde 77 quando meu Tata morreu e eu parti.
Minha velha avó já não estava mais na casa grande e não havia mais a vinha para brincar, mas o lugar ainda guardava milhares de lembranças de um tempo em que só tinha que me preocupar em dar cabeçadas em quem me incomodava.
Isso incluía minha mãe e minha avó. Pobrezinhas.


Propriedade villalegrina típica


Enquanto minha avó e meu tio estavam em um funeral, nós fomos caminhando até a vinícola Carta Vieja para comprar algumas garrafas de tinto direto da fábrica. Isso não era estritamente necessário do ponto de vista prático, mas como o que importava era a simbologia, fomos felizes e acabamos sendo surpreendidos pela possibilidade de fazer um passeio pelas instalações, que não estavam a todo vapor devido à distância da época da colheita (fevereiro).
Eles não estavam lá muito preparados para receber turistas, mas ao mesmo fizemos um bom passeio e compramos algumas garrafinhas.


A sede da Carta Vieja



Vinhas em crescimento


Quando voltamos, minha avó e meu tio já estavam em casa, o que nos rendeu mais algumas horas de boa conversa.
Só paramos quando eu mencionei a vontade de tomar vinho pipeño, uma espécie de vinho caseiro pouco recomendado pelas autoridades sanitárias, mas muito apreciado no interior do país. Na mesma hora meu tio se ofereceu para ir às compras comigo.
Minha mineira ficou "conversando" com a minha avó e eu fui com ele até a casa de um amigo, notório distribuidor daquela maravilha líquida.

A expectativa era grande e foi plenamente satisfeita quando o proprietário, que se lembrava de mim com quatro anos de idade, nos serviu um par de copos como degustação.
A conversa estava boa e só conseguimos ir embora depois do quarto copo e só por que aproveitamos a chegada de um caminhão com uns 50 garrafões de 50 litros. Aquela compra massiva nos salvou do belo porre que já estava encomendado.

Voltamos, jantamos, vimos um programa de TV sobre a busca de esposas na Rússia por homens chilenos, nem sempre com resultados felizes, e fomos dormir.
O dia havia sido longo e o nível alcoólico favorecia a chegada de Morfeu.

Gastos:
Táxi - $ 5400,00
Vinhos - $ 10500,00

terça-feira, setembro 12, 2006

Primeira tentativa

Acordar às seis da manhã quando se está de férias e quando se visita um lugar no fim do inverno deveria ser proibido por leis internacionais e passível de prisão sem fiança ou apelação.
Como era a Minha Mineira quem havia solicitado esse esforço para ter sua primeira experiência com esportes de inverno, nada mais natural que eu fizesse valer a promessa que fiz lá em cima no altar e me livrasse das garras daquela cama que teimava em não me deixar sair em direção ao banheiro.

Pegamos nossa já velha conhecida Linha Vermelha do Metrô e fomos novamente até a Ski Total na estação Escuela Militar.
Desta vez já estávamos encaminhados e tivemos apenas que retirar nosso equipamento e entrar na van que nos levaria até El Colorado.

A viagem demorou cerca de 90 minutos em uma estrada não muito estreita e bem sinalizada. No início, o tempo não nos ajudou muito e havia muita neblina, mas depois de uma certa altitude, as nuvens ficaram para trás e o sol se abriu forte e bonito.
Aliás, essa é uma característica dessa estação: por estar a cerca de 3000 metros de altitude, sensivelmente mais alta do que a média da estações, poucas nuvens encobrem o lugar e é preciso um cuidado ainda maior com a proteção contra o sol.



Chegamos lá, nos situamos e fomos trocar de roupa no vestiário.
Nos sentimos bastante estranhos com aquelas botas duras e aquelas roupas grossas, mas demos um jeito e finalizamos a transformação.
Como não tínhamos muita idéia de como era o contato com a neve, acabamos reforçando nos agasalhos e só ao longo do dia fomos entender o quão errada seria essa decisão: as roupas de neve são muito quentes e mesmo que vc esteja sem nada por baixo, o suor será exagerado e qualquer roupa que estiver ali ficará encharcada.

Demoramos um pouco para chegar até o local da aula, a escola Los Zorros, e aguardamos alguns minutos até a chegada do professor. Justo quando ele chegou, me dei conta que precisava de pilhas para a máquina fotográfica e que havia perdido a chave dos armários que havíamos alugado para guardar nossas coisas.
Lá fui eu enfrentar a ladeira de neve que nos separava dos armários e, depois de muita busca e raiva, voltei para a aula com quase uma hora de atraso.
Tudo bem que parte desse atraso foi por conta do próprio professor, mas de qualquer maneira, ele não demonstrou muita satisfação por estar ali e nos deu uma aula bastante instrutiva e importante, mas bem pouco calorosa e gentil.



Depois de uma hora de pouca paciência, ele nos liberou para a pista de iniciantes (nosso pacote incluía o acesso a Colorado Chico, além do transporte e da aula) e nos desejou sorte. Deve ter desejado que quebrássemos a perna também, mas isso é uma liberalidade minha. De qualquer maneira, o que ele nos ensinou foi bastante útil, principalmente quando ficamos a ponto de quebrar uma ou ambas as pernas.

Antes de encarar a pista com nossos recém-adquiridos conhecimentos de esqui, paramos para comer uma pizza bastante razoável na lanchonete vizinha à escola de esqui, descansamos e só então partimos para o suicídio montanha abaixo.

Ao chegar ao início da pista, tivemos uma desagradável surpresa: por mais que o professor tivesse nos mostrado os rudimentos dos processos de tirar e colocar os esquis, de andar para frente e para o lado e de controlar a velocidade e a direção do trajeto, ele não mencionou nada sobre o mecanismo que nos levaria montanha acima, uma espécie de âncora amarrada a um cabo que ficava correndo sem parar como um teleférico e precisava ser agarrada com força para se chegar aos pontos onde começava a descida.



Logo na primeira tentativa de subir, tentei me sentar na âncora e caí. Fui arrastado por alguns metros e fiquei bem na trilha das pessoas que subiam.
Aos gritos o responsável pelo arrasto me indicou a melhor forma de me equilibrar e voltei ao início.
Obtendo finalmente um pouco da solidariedade tão necessitada pelos iniciantes, fui orientado a não me sentar no dispositivo, mas sim a encaixá-lo nas minhas pernas e me manter equilibrado.
Para minha surpresa, a orientação funcionou e lá estava eu subindo a montanha de neve, meio claudicante, é verdade, mas ainda assim subindo.

Logo depois eu tive mais uma experiência traumático no primeido contato com a neve: também não havia recebido orientações sobre como me desvencilhar da âncora e não esperei até estar no plano ou na descida para me soltar. Resultado: larguei a corda e comecei a descer, desesperado para parar e não ser atropelado por quem vinha atrás.
Depois de cair, tirar os esquis e me arrastar até o início da descida, consegui me juntar à Minha Mineira e nos preparamos para a parte fácil: utilizar nossas habilidades e descer a montanha.



Mal sabíamos nós que o pior estava para começar.
Enquanto ela se esforçava para ficar em pé, eu me joguei uma vez e desci o morro freiando como doido e cheguei lá embaixo.
Ela tentou, caiu, tentou, caiu e eu subi de novo para encontrá-la.
Novamente tive problemas ao sair do arraste, mas consegui chegar até onde ela estava e me concentrei em ajudá-la a descer.
Apesar dos meus esforços, o máximo que consegui foi torcer o joelho dela enquanto a ajudava a levantar e depois de mais uma dezena de tombos descontrolados, ela decidiu desistir e desceu a pista a pé.
Eu ainda desci mais duas vezes, sendo uma delas da parte mais alta da pista.
Como só tem medo quem sabe o que está fazendo, eu desci com a cara e a coragem e quase me matei umas três vezes. Caí de cara, de lado, de costas e depois de uns cinco minutos consegui chegar ao fim do trajeto que deveria durar, no máximo, um.

Com o corpo todo doendo fui encontrar a Minha Mineira que já estava passando meio mal de tanto sol e tombo.
Nessa hora entendemos que nosso maior problema não era não saber esquiar, mas sim não ter usado a dose correta de protetor solar. Além do cansaço, estávamos começando a lidar com o calor do rosto queimado e isso certamente nos traria problemas mais tarde.

Ainda faltavam 90 minutos para a saída da van, mas nenhum de nós tinha energia para mais nada. Ao invés de tentarmos descer novamente a montanha, tiramos a roupa de esqui, nos vestimos, colocamos o equipamento na van e ficamos ali apreciando a paisagem.
A Minha Mineira já dava os primeiros sinais de insolação, mas foi só no caminho de volta que a coisa pegou: ela passou mal e teve ânsias que obrigaram o motorista a parar e aguardar que ela se recuperasse.

Vim o caminho todo preocupado com ela, que trocou de lugar com uma brasileira que estava voltando do Atacama e havia praticado snow board na estação.
Voltamos à Ski Total, devolvemos o equipamento, nos despedimos dos brazucas que encontramos, inclusive de um curitibano que havia conhecido a namorada na Nova Zelândia e que havia se mudado para o Chile para ficar mais perto dela.
Como a Minha Mineira estava muito fraca, resolvemos pegar um táxi e voltamos para a casa do meu amigo em Providencia.

Ambos chegamos acabados no apartamento, mas ela estava pior e o princípio de insolação estava pegando, por isso a fiz tomar banho e se deitar, enquanto eu lhe servia soro caseiro (pela segunda vez desde que estamos juntos) e providenciava a hidratação do seu rosto com creme. Fiz isso por algumas horas até que ela adormeceu e eu fui ver "Nip tuck" na sala.
Depois de algum tempo, eu também fui dormir já que na manhã seguinte seguiríamos para o Sul.

Gastos do dia:
Metrô - $ 1840,00
Transporte - $ 16000,00
Armários - $ 6000,00
Almoço - $ 8500,00
Lanche - $ 3800,00
Bebidas - $ 1900,00
Táxi - $ 4500,00

segunda-feira, setembro 11, 2006

Infeliz aniversário

Mais um aniversário do golpe. O primeiro que passei no Chile desde que vim para o Patropi.
Apesar de ter voltado várias vezes para a terra natal, era sempre Verão o que nunca me permitiu contato com o ranço e com a mágoa que este dia segue trazendo para o povo chileno.
Neste dia, 33 anos antes, Pinocho e seu dinheiro yankee derrubavam Allende, um presidente socialista que, se não estava fazendo um governo perfeito, ao menos contava com o apoio do povo.
Sei que isso pode render uma conversa de horas sobre se foi bom ou ruim para o país ter uma ditadura militar, por isso vou voltar para as questões turísticas.

Se para mim aquela data não representava muito, para os que ficaram no Chile ela dizia tudo e era a ocasião perfeita para extravasar toda a sua raiva e frustração.
Alguns aproveitam para mostrar a sua safadeza também, mas graças a Deus esses são minoria.
Por conta do medo de ficar presos em alguma confusão, resolvemos ficar longe do Centro e mais longe ainda de Valparaíso, sede do Congresso, onde tradicionalmente acontecem enfrentamentos entre manifestantes e carabineros.

Nosso programa naquele dia seria bastante simples: visita à vinícola Cousiño Macul e compra das passagens para Concepción (para visitar a minha irmã) ou Villa Alegre (para matar a saudade do colo da minha avó).
Ligamos para a vinícola paa garantir o lugar e caminhamos até a estação Los Leones para ir até lá.
Tínhamos a opção de visitar também a Concha y Toro, mas como tenho um carinh especial pelo Antiguas Reservas, preferimos a Cousiño mesmo.

Fizemos baldeação para a linha 5 (azul) na estação Tobalaba e seguimos por nove estações até Quilin. Saindo da estação, pegamos um táxi em frente a um supermercado e rapidamente chegamos à vinícola.
Poderíamos ter feito o trajeto a pé, mas não tínhamos idéia da distância e preferimos não arriscar.


A Cousiño Macul


Ao chegar, percebemos que não éramos os únicos visitantes do Brasil.
Aliás, os não brasileiros eram minoria, apenas uma família de aparência européia e eu, que apesar de parecer brazuca, ainda sou chileno de nascença.


Enoteca


O passeio foi muito interessante e vimos a Enoteca, os tanques de madeira (históricos) e de aço (mais atuais), os barris de envelhecimento e também o maquinário original da época em que a vinícola foi fundada.
O ponto alto da visita foi a degustação do vinho Gris, um vinho feito com uvas Cabernet Sauvignon, portanto tinto, mas que utiliza o processo de elaboração do vinho branco, ou seja, a fermentação não utiliza a casca da uva que acaba dando a coloração ao líquido.

O tal Gris era um vinho leve e delicioso, ideal para ser tomado no Verão já que fica bom mais fresco, quase gelado.
Foi necessária apenas uma tacinha (que aliás era um brinde incluído na visita) para que nos convencêssemos de que valia a pena comprá-lo e foi com essa intenção que finalizamos a visita e fomos gastar alguns dinheiros na lojinha da Cousiño.
Tive que resistir à tentação de comprar bonés, chaveiros e camisetas e me concentrei apenas nos vinhos.


Maquinário vintage


Depois das compras, ficamos conversando com um grupo de brasileiros que estavam de viagem marcada para Macchu Picchu por terra e ficamos espantados com a disposição deles. Quer dizer, fiquei sem saber se o que os motivava era a disposição ou a total falta de conhecimento sobre o que eles encontrariam por lá. Vai saber.

Mais um táxi (por conta das garrafas compradas) e uma viagem de metrô e estávamos de volta a Los Leones, justo a tempo de largar as coisas no apartamento e arrumar uma mesinha no interessante restaurante Giratório, que ficava ali do lado.
Como o nome já diz, a principal atração do lugar era a sua movimentação que causou um belo desconforto no início, mas que depois nos divertiu bastante.
O maquinário do restaurante faz com que ele dê uma volta completa em cerca de 90 minutos, o que garante uma refeição "movimentada".
A comida era boa e o vinho também.

De barriga cheia, emendamos uma nova viagem de metrô até a Escuela Militar e finalmente fechamos um passeio para esquiar.
Achamos que nosso nível "amebóide" de esqui não merecia Valle Nevado e por isso fechamos com El Colorado, uma estação próxima, muito mais simples e sensivelmente mais barata.
Nosso pacote incluía o transporte de ida e volta em van, o tíquete para a pista e uma aula básica para garantir que a gente não se matasse logo ao colocar os esquis.
O caro equipamento (esquis, roupas, luvas, botas e bastões) teve que ser alugado à parte.

Com o passeio do dia seguinte garantido, restava comprar as passagens de ônibus para o Sul. Como eu finalmente havia conseguido falar com a minha avó, resolvemos ir para Villa Alegre e por isso pegamos novamente o metrô na Escuela Militar e seguimos a linha vermelha até a estação Universidad de Santiago, onde ficavam as empresas que iam para onde queríamos.
O metrô estava super-lotado e tivemos bastante dificuldade para não sermos esmagados, mas o final tudo deu certo, conseguimos comprar nossas passagens (em dinheiro, por que eles não aceitavam cartão) e voltamos para o apê.

Antes de jantar, demos um pulo na Falabella paa comprar um presente para a minha amada sobrinha e logo depois rumamos de carro (que medo) para o elegante bairro de El Golf, um lugar renovado, cheio de prédios bonitos e com um inconfundível ar de Berrini, tal a sensação de estar rodeado de grandes empresas,
Nosso destino era o aconchegante Akai Sushi, um japonês gostoso de barato, onde encontramos um casal amigo do meu amigo. Ele era peruano e ela colombiana, mas isso não fazia muita diferença na nossa mesa internacional.
O curioso é que, naquela mesa, chilenos eram minoria: só eu.

Voltamos para casa meio correndo por que o dia seguinte seria pesado e começaria muito cedo.

Gastos do dia:
Metrô - $ 3700,00
Vinícola (passeio) - $ 10000,00
Vinhos - $ 35320,00
Táxi - $ 1550,00
Táxi - $ 1500,00
Almoço - $ 26500,00
Chocolate - $ 990,00
Equipamento de esqui - $ 56000,00
Aulas de esqui - $ 31000,00
Passagens de ônibus - $ 9000,00
Presente - $ 2990,00
Armário (no supermercado) - $ 100,00
Supermercado - $ 2770,00
Jantar - $ 8000,00

domingo, setembro 10, 2006

O centro e os protestos


Santiago


Ter passado a vida inteira no Brasil me deixou bastante distante da vida cotidiana do Chile e de todos os efeitos que o golpe causou no povo e na sociedade.
Um desses efeitos foi a "comemoração" que acontece todos os anos e que bagunça o centro de Santiago de uma forma que turista nenhum gostaria de ver.
Mas como nem meu amigo peruano tinha muita idéia da extensão que a bagunça teria, saímos de casa relativamente cedo para passear pelo Centro, comer alguma coisa e, obviamente, tirar um caminhão de fotos.


O mapa do metrô


Pegamos a linha vermelha do metrô na estação Los Leones e fomos no sentido San Pablo até a estação La Moneda, que obviamente ficava ao lado da sede do governo chileno.
Lá tivemos o primeiro contato com o ressentimento dos que não concordaram com o golpe, ressentimento esse que foi demonstrado na forma de quebradeira e vandalismo.


Um efeito do vandalismo


Por conta dos distúrbios do dia anterior, o Palácio e seus arredores estavam fechados, todos protegidos por cercas de metal e carabineros, a Polícia Militar local.
Foi chato por conta do nosso desejo de conhecer o lugar, mas não podíamos fazer nada.
Mais tarde escutamos discussões sobre a participação de baderneiros e ladrões nas manifestações. Eles diziam que esse povo ruim se misturava à multidão para depredar e roubar, enquanto outros gritavam e achavam que estavam fazendo a diferença.
Uma prova de que gente desonesta e malvada existe em todo lugar deste mundão.


La Moneda


Mesmo com um certo receio do que poderia acontecer durante o dia, decidimos seguir nossa caminhada e pegamos o Paseo Ahumada, um calçadão cheio de cafés e lojinhas que nos levava diretamente à Plaza de Armas, o coração da cidade.
Lá visitamos a maravilhosa Catedral Metropolitana, assistismos a uns shows improvisados de música e dança, visitamos algumas barraquinhas de artesanato e seguimos a caminhada rumo ao Rio Mapocho.


A Catedral Metropolitana


Quase na beira do rio fica o famoso Mercado Central de Santiago, uma bela construção ao estilo inglês onde todo turista acaba parando quando procura por comida típica e estrutura poliglota.
Quer dizer, o poliglota aí é meio que exagerado, mas até que os garçons se esforçam e se fazem entender para agradar aos turistas de todas as partes do mundo.

A única coisa que me desagradou no Mercado foi o assédio exagerado do povo do Donde Augusto, um restaurante que já domina quase que metade do lugar. Eles adoram adivinhar de onde o turista vem entre outras técnicas de atração de consumidores.
Meio que por birra, não aceitamos o assédio de nenhum deles e atravessamos todo o Mercado até sairmos por uma porta que dava exatamente para o Rio Mapocho.


O Mercado Central


Lá encontramos um restaurante chamado El Galeón, cujo assédio moderado e instalações curiosas nos chamaram a atenção: ele ficava meio dentro, meio fora do Mercado e nos pareceu simpático.
Como ainda não estávamos com fome, decidimos caminhar até o Centro Cultural Estación Mapocho, uma antiga estação de trens transformada em local para exposições e eventos, onde encontramos uma bela exposição de fotos de uma entidade chamada Oxfam.


O Centro Cultural Estación Mapocho


A idéia da exposição era chamar a atenção para práticas injustas ou prejudiciais de comércio, seja para quem produz, seja para quem consome o produto, e a forma que a Oxfam encontrou para isso foi colocar uma série de famosos em contato com o tal produto e um texto falando sobre quem era prejudicado com a exploração ou comércio irresponsável dele.
Foi um tal de Bono com açúcar, Chris Martin com arroz, Thom Yorke com chocolate e Alanis Morrissette com trigo que não tinha como não chamar a atenção.
A idéia do comércio justo pegou e as imagens ajudaram muito.


Bono no Mapocho



O folder da exposição


A fome já estava apertando quando fomos visitar outra exposição de fotos, ainda dentro do Mapocho. O lugar só tinha a sua entrada aberta à exposições e o pátio interior parecia em reformas ou em limpeza.
Caminhamos um pouco mais e acabamos entrando no Galéon onde enfrentamos, entre outras coisas, um belo mariscal especial e uma gelada garrafa de vinho branco.
Como já esperávamos, o garçom sacou que éramos do Brasil a tempo de pedir que a Minha Mineira se contentasse com um peixe grelhado.
Segundo ele, os brasileiros não costumam se dar bem com os coloridos frutos do Pacífico.
Depois que acabei de comer aquele monte de coisas coloridas, achei que ele tinha um pouco de razão, mas felizmente não sofri nenhum contratempo gastro-intestinal.


Mariscal especial


Alertados pelos garçons sobre alguns tumultos que haviam começado no Cemitério General e que ameaçavam caminhar para o Centro, voltamos por Ahumada e entramos na estação Santa Ana da linha verde do metrô.
Nosso destino era a estação Bellas Artes à partir da qual chegamos ao museu de mesmo nome em poucos minutos.
Infelizmente já era tarde e não valia a pena passear pelos corredores do museu, mas deu para perceber que ele é muito bem montado e que merece um passeio um pouco mais demorado.


O Museu de Belas Artes


Nossa idéia era subir o Cerro San Cristóbal de funicular, pegar o teleférico e caminhar até a casa do meu amigo e para isso nada melhor do que uma gostosa caminhada pelo pequeno e belo Parque Forestal.
O lugar estava cheio das tais "árvores secas", tão amadas pela Minha Mineira, e começava em frente ao Bellas Artes para terminar pertinho de Bella Vista, um bairro tão boêmio quanto a Bela Vista daqui.

Caminhamos um bom tanto, atravessamos o Mapocho, seguimos por Bella Vista até a entrada do funicular, uma construção que lembrava um castelo medieval e que dava acesso tanto ao dito cujo quanto ao zoológico.
Decidimos deixar os bichos para depois e compramos os tíquetes de subida pelo funicular e descida pelo teleférico.


A entrada do funicular



A subida


Depois de uma subida meio amedrontadora pela aparente precariedade do tal funicular, chegamos ao topo do morro onde tivemos uma bela vista de parte da cidade.
A poluição não ajudou muito mas conseguimos ver que Santiago tem uma quantidade de prédios infinitamente inferior à nossa Sampa, e que isso pode ser um belo motivo para se morar por aqui.


Santiago vista de cima


Bem do lado do mirante fica uma escadaria não muito grande que leva até o pé de uma imagem da Virgem da Imaculada Conceição, onde não há como não se sentir mais próximo da Comissão Técnica do Céu.
Ficamos una minutos ali, apreciando a paisagem e, por que não, rezando para que o resto da viagem fosse igualmente sereno e gostoso.


A Virgem da Imaculada Conceição


Seguimos nosso plano à risca e pegamos o teleférico para voltar para casa.
Uma vez lá dentro, pensei em todas as centenas de vezes que meus primos me convenceram a não fazer aquele passeio por ser uma coisa de turistas e me arrependi de não tê-los ignorado.
Não que não fosse mesmo coisa de turistas, mas como era essa mesma a nossa posição na capital dos chilenos, tínhamos mais é que aproveitar um passeio bonito e gostoso como aquele.

Depois do desembarque, caminhamos pela Avenida Pedro de Valdivia até o Rio Mapocho e de lá de volta para a casa do meu amigo.
Uma caminhada agradável de uns 15 minutos que nos levou por ruas arborizadas e limpas, bem ao estilo da nossa moradia ideal.

Uma vez banhados e descansados, resolvemos correr atrás de passeios a estações de esqui (a Minha Mineira venceu mais uma) e tomamos novamente a linha vermelha em Los Leones, sentido Escuela Militar.
Descemos na última estação e caminhamos por uma avenida larga e movimentada (Américo Vespúcio?) até chegarmos a um pequeno centro comercial onde ficavam as lojinhas que vendiam os passeios.
Infelizmente elas estavam fechadas e não conseguimos muita informação além de um desalentador boletim meteorológico informal, cortesia de um tiozinho que trabalhava ali, que dizia que os próximos dias seriam muito ruins para o esqui.

Como não havia muito o que fazer, fizemos o caminho de volta e tomamos de novo a linha vermelha, desta vez rumo à Estación Central, onde meu amigo tentaria conseguir passagens de trem ou de ônibus para Pucón.
Ele e uns amigos haviam esquecido de planejar o feriado e agora estavam desesperados correndo atrás de passagens e hospedagem no Sul.

Novamente não obtivemos sucesso e não nos restava outra coisa a não ser voltar para casa e comer.
As idas e vindas já haviam nos deixado famintos e fomos nos refugiar no bom e honesto Los Insaciables, que ficava no quarteirão ao lado do apê do meu amigo.
Apesar do constante cheiro de cigarro, acabamos comendo bastante bem e só não esticamos a noite por que o povo queria voltar logo para casa com medo dos tumultos que já estavam rolando em outros cantos da cidade.
Isso nos fez lembrar que o dia seguinte seria o aniversário do golpe e que por isso teríamos várias razões para não colocar o nariz para fora de casa.

Gastos do dia:
Metrô - $ 1480,00
Banheiro público - $ 100,00
Água mineral - $ 500,00
Almoço - $ 26140,00
Teleférico/funicular - $ 3400,00
Metrô - $ 1580,00
Jantar - $ 15335,00

sábado, setembro 09, 2006

Chegando a Santiago

Apesar de estar praticamente de olhos fechados quando desci do táxi, nossa chegada a Guarulhos foi bem tranqüila. Havíamos agendado um táxi na noite anterior para não correr risco nenhum e, como sempre, ele chegou antes da hora e nos obrigou a uma pequena aceleração no desembaraço do café da manhã e da escovação dentária.

Conforme planejado, chegamos ao balcão da TAM bem antes das duas horas tradicionais e não encontramos ninguém. Por sorte os funcionários da companhia haviam chegado alguns minutos antes e não tivemos problemas para fazer nosso check in.

Com o "chequinho" feito e com tempo de sobra, nos embrenhamos na La Selva, compramos algumas revistas para embalar as viagens, tomamos café da manhã mais uma vez, incrementamos nossa necessáire no Boticário, nos cansamos de fazer hora e fomos na direção do portão de embarque. Como a casa lotérica estava fechada, não havia mais razão para ficar enrolando.
A passagem na Polícia Federal foi bastante tranqüila. Nada dos constrangimentos de ter de dar meia volta por não ter preenchido corretamente os formulários de imigração, coisa obrigatória para um estrangeiro como eu. Mérito da experiência de viagens anteriores.

Fizemos uma passagem rápida pelos dois free shops que estão no caminho para o portão de embarque, com direito a uma reserva de 3 garrafas de Black Label a preço promocional e uma bisbilhotada nos preços dos perfumes. Como nossos recursos estavam muito excassos, não demoramos muito para estar junto ao portão de embarque e ansiosos pela decolagem, marcada para as 09:10 da manhã.

O avião era o confortável Airbus A-330, com formação dois-quatro-dois, o que causou diversas confusões entre os passageiros que não se preocupavam muito e ler as identificações de corredores e número de assentos: a ausência da fila B esquentou os ânimos de uma meia dúzia e causou a diversão de outro punhado de passageiros. Não cheguei a ver se do outro lado do avião também faltaria uma letra, mas já tinha me divertido o suficiente e consegui controlar facilmente a minha curiosidade.

A viagem foi surpreendentemente tranqüila, sem os tradicionais solavancos da travessia dos Andes e sem muitos problemas para achar o que fazer já que as poltronas possuíam monitores e canais de voz individuais. Escolhi ver "Os sem floresta" e não me arrependi.
Acabei o filme e ainda peguei o finalzinho de "X-Men 3" e do "Código Da Vinci" e me lembrei de como é fácil estragar algo que parecia o produto perfeito.

Por falar em Andes, foi especialmente bonito ver o mar de neve que só quem viaja no Inverno tem à sua disposição.
Como sempre havia viajado no Verão, aquele manto branco sobre as montanhas foi uma experiência inédita e inesquecível.
Valeu a pena sentar no colo de mais de um vizinho para conseguir um ângulo razoável para as fotos.


A recompensa pela viagem no inverno


O desembarque foi bastante tranqüilo, quatro horas depois da partida e sem os tradicionais empurrões dos vôos domésticos. Antes, porém, uma menção a algo que já é tradicional nas viagens para a terra natal: o aplauso no pouso.
Obviamente que só os chilenos aplaudem e, apesar de causar estranheza e riso nos não iniciados, acaba sendo uma apresentação do tipo de povo que o viajante vai encontrar em terra: sisudo, quadrado, mas carinhoso depois que começa a confiar em você.

Com os documentos preenchidos em mãos, pegamos nossas respectivas filas, passamos pela Imigração e nos encontramos na porta do free shop, que visitamos à jato, só para ter certeza que os preços do Brasil eram mais atraentes.
Não trocamos dólares na área de recepção de bagagem por temer taxas exageradas e com isso saímos da área de desembarque sem um único peso no bolso. Isso foi levemente constrangedor quando não consegui me livrar de um carregador de malas que me pediu um troco pela ajuda e que ficou com cara de poucos amigos depois de ouvir as minhas desculpas.
Se servir como dica, melhor não aceitar a ajuda de ninguém ou se preparar e ter uma ou duas moedas de 100 pesos para "comprar a sua liberdade".

Logo após esse "carão" vivemos um dos poucos momentos chatos da viagem: o assédio voraz e quase violento dos motoristas de táxis, vans e ônibus que se estapeiam para conseguirem passageiros e clientes.
Lutamos bravamente, quase não fomos mal educados com esse povo insistente e chato e finalmente conseguimos chegar a um telefone e nos afastar da saída dos passageiros.
Isso nos permitiu trocar dólares (cotação de 1 para 510, 765 pesos de taxas, resultando em 50235 pesos, o mesmo valor que teríamos conseguido trocando dinheiro dentro da área de desembarque) e escolher nosso transporte.
Como da vez anterior, optamos pelo ônibus da Tur Bus que nos deixaria no terminal de ônibus dessa empresa e bem ao lado de uma estação de metrô (Universidade de Santiago, linha Vermelha). Para quem já deseja partir de ônibus para fora de Santiago, essa acaba sendo a melhor opção, tanto em termos de tempo, quanto em dinheiro.

Infelizmente para nós as coisas não eram tão fáceis já que ficaríamos em Santiago por alguns dias e acabamos entrando em um táxi de rodou muito até chegar à Calle Nueva de Lyon no bairro de Providencia, nosso lar dentro da Capital.
Analisando melhor as opções que tínhamos no aeroporto, teria sido melhor pegar uma van da mesma Tur Bus, pagar $ 4000,00 por cabeça e ir direto para o endereço desejado.
Fica como lembrete para a próxima vez.

Chegamos ao apartamento do meu amigo, descarregamos a bagagem, começamos a colocar a conversa em dia e logo fomos matar quem estava nos matando.
Como queríamos comer algo típico da terra, meu amigo ligou para alguns conhecidos, se informou e nos levou para um restaurante lá no final da Avenida Las Condes chamado Doña Tina.
O lugar me lembrou da velha e boa Peña Don Fernando na Aldeia de Carapicuíba, pelo chão de terra batida e pelas mesas no meio das árvores. Bons tempos aqueles.
Até aquele momento a gente não sabia, mas a franquia havia ganho recentemente o prêmio de melhor empanada de Santiago, o que não é pouca coisa.
Obviamente, mandamos ver uma empanada de pino (carne em cubinhos bem pequenos, cebola, azeitona preta, uva passa e ovo cozido) para abrir o apetite e optamos por um belo salmão com purê picante como prato principal.
Para beber, a óbvia escolha de um branco da casa, apesar da minha declarada e pouco acadêmica preferência por tintos encorpados.

Depois do almoço, tomamos o mesmo táxi da ida, com quem havíamos combinado o horário da saída, e fomos tomar um café no belo e caótico shopping Parque Arauco.
Como não tínhamos a menor condição de digerir nada mais, apenas acompanhamos meu amigo que se divertiu com um capuccino lotado de chantilly e uma media luna, quitute típico argentino.
Antes de voltar para casa, fomos até um guichê da Tur Bus, maior empresa de ônibus do país, em busca de passagens para o feriado da semana seguinte. Meu amigo havia esquecido de se planejar e agora corria contra o relógio para arrumar alguma forma de ir até Pucón ou Chillán.
Como já era esperado, não havia nenhum tipo de passagem e voltamos para casa meio decepcionados.
Ainda bem que nós sairíamos de Santiago antes do feriado, o que não deveria nos trazer problemas com passagens e transporte.

O programa da noite foi em um complexo de restaurantes chamado Borde Rio.
A noite escura e as centenas de voltas dadas pelo táxi me impedem de dizer com exatidão onde fica esse lugar, mas garanto que vale a pena pagar um pouco mais pela corrida e visitá-lo.
Para quem está hospedado no Marriott ou no Hyatt, até que o passeio não sai tão caro.
O lugar ficava, obviamente, ao lado de um rio que acredito ser o Mapocho, onipresente em boa parte da cidade, e contava com um espaçoso estacionamento e uma ampla oferta de restaurantes temáticos ou internacionais, todos muito bem decorados e chamativos dentro do seu estilo.
Escolhemos um lugar chamado Lamu Lounge e fomos surpreendidos por um dono que falava um português perfeito e sem sotaque. Na verdade, ele falava tão bem o espanhol e o português que fiquei na dúvida sobre a origem do fulano.
Para nos deixar ainda mais à vontade, fomos atendidos por garçons mineiros e comemos porções de aperitivos (tapas) tailandeses e mexicanos. Para beber, novamente um vinho da casa, desta vez um tinto apenas razoável.

No caminho de volta para casa (novamente de táxi) comentamos a possibilidade de ir até uma estação de esqui, de visitar Viña e Valparaíso e de conhecer algum vinhedo próximo.
Como a previsão do tempo mencionava grande chance de chuva, acabamos optando por passear um pouco no Centro e decidir nosso destino durante o dia.

Gastos do dia:
Táxi para o aeroporto (São Paulo): R$ 70,00
Revistas: R$ 39,79
Café: R$ 22,10
Boticário: R$ 21,90
Free-shop: R$ 75,21
Ônibus para o Terminal Rodoviário (Santiago): $ 2800,00 ($ 1400,00 cada um)
Táxi do Terminal para Providencia: $ 5000,00
Almoço: $26550,00
Jantar: $24200,00

quinta-feira, setembro 07, 2006

Expoflora

Pouco antes de partir oficialmente de férias, aproveitei o feriado de festas pátrias para conhecer um lugar que estava na minha mira há tempos.
Holambra tem a grande vantagem de estar relativamente perto de Sampa, o que exige apenas um pouco de paciência para seguir as indicações do mapa e chegar até essa simpática cidade, uma das únicas colônias holandesas que conheço aqui no Brasil.
Só me lembro de outra cidade com presença mais ou menos significativa de holandeses por aqui, Blumenau em Santa Catarina, mas por motivos óbvios, Blu não tem nada a ver com Holambra. Ainda bem.

A idéia da visita era finalmente conhecer a Expoflora e passar uma tarde agradável com meus pais, minha irmã e, novamente óbvio, a minha mineira.

Acabamos saindo de casa mais tarde do que deveríamos e pegamos a estrada por volta das 10 da manhã. Inicialmente pegamos a Bandeirantes, mas a minha mineira sugeriu uma passagem para a Anhanguera para não correr o risco de perder a saída para a Dom Pedro. Como nós já tínhamos arrumado problemas na última vez que fomos a Sousas visitar uma amiga, obedeci meio de cara feia, mas obedeci
Mesmo sendo bem perto para os padrões nacionais, Holambra fica a umas duas horas de São Paulo, o que significa que entramos no recinto da exposição por volta do meio-dia, ou seja, justo na hora de almoçar.

Mesmo famintos, acabamos passeando um pouco pelo parque e curtindo a organização e as cores. Tudo estava impecável e até o circuito que levava os visitantes em uma única direção existia. Esse circuito começava em uma exposição de paisagismo e depois nos levou até o pavilhão principal onde estavam expostos vários ambientes com flores.
Não havia como se perder.

Só depois que saímos desse pavilhão é que tivemos um pouco mais de liberdade de escolha.
Acabamos comprando alguns salames e queijos artesanais que um pessoal do Sul estava vendendo e também algumas camisetas de grife (obviamente alternativas) só para aumentar nossas escolhas durante a viagem que faríamos dali a dois dias.
Como a fome seguia apertando, deixamos para trás as casinhas coloridas que havia na saída do pavilhão principal e entramos por uma rua que tinha um monte de animais expostos. Era sim um mini-zoológico, mas que contava também com animais domésticos e até pôneis para passear.

Como já passei da idade (e do peso), decidimos comer em um restaurante ali do lado e matar de vez quem estava nos matando.
O restaurante trabalhava no sistema de bufê com taxa única o que nos permitiu repetir o prato e dispensar a mistura de salada e prato quente, típica de lugares que exigem pressa e bom poder de escolha.

Depois do almoço que estava bastante razoável, voltamos para a área do zoo por que a minha mineira queria ver de novo uma espécie de incubadora onde dezenas de ovos de galinha estavam sendo chocados.
Como era de se esperar, também havia um bom número de pintinhos, alguns já fortes, outros com aparência doente, todos recém saídos da casca.
Era meio deprimente e supostamente cruel, mas a minha mineira gostou e eu fiquei esperando pacientemente a sua volta para que pudéssemos seguir o passeio.

O final do circuito nos levou à rua principal, onde havia uma fila enorme para um passeio pelos campos de flores e outro monte de casinhas coloridas.
Ah, não posso esquecer de mencionar que havia também várias centenas de pessoas, passeando de lá para cá e curtindo a tarde da mesma forma que nós fazíamos.
Surpreendentemente, não me estressei pela lentidão do passo a que me obrigava a multidão. Eu estava curtindo o passeio e deixei tudo para depois.

Depois de comermos alguns deliciosos doces semi-caseiros, voltamos para a entrada do parque: era hora das compras e todos estavam animados.
Acabamos nos decepcionando um pouco com o que encontramos, não pela falta de estrutura ou variedade de oferta, mas sim com os preços, segundo minha velha mãe, mais caros do que os que podemos encontrar em lugares como Embu das Artes, por exemplo.
Acho interessante fazer esse esclarecimento e reforçar que o passeio vale a pena, mas não exatamente pelas compras de plantas, flores e sementes.

Para encerrar, saímos do pavilhão de venda e demos de cara com uma apresentação do que imagino ser uma dança típica da Holanda.
Vi algo parecido em 94 em Amsterdã, mas desta vez estava tudo muito mais divertido já que os dançarinos estavam completamente caracterizados, incluindo aqueles engraçados tamancos de madeira, aparentemente confortáveis até para dançar, já que ninguém ouviu gritos ou reclamações por parte dos dançarinos.

Com a missão cumprida (pelo menos da minha parte), voltamos para Sampa e para nossos preparativos para as férias.
Já havíamos conhecido o lugar novo do ano, mas ainda tínhamos muitas expectativas com relação àquele fim de inverno.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Rotas de vinho

Dia desses assisti a Sideways e fiquei com vontade de entender mais de vinho.
Quer dizer, melhor seria dizer que eu gostaria de entender alguma coisa de vinho, já que meu conhecimento atual serve apenas para dizer se um vinho é tinto ou branco.
Essas vontades ficaram ainda mais reforçadas quando penso que estaremos perto de grandes regiões produtoras e que poderemos experimentar algumas delícias enquanto revemos parentes e matamos saudade de comidas da infância.

Certamente não conseguiremos visitar todos os vales e nem experimentar todas as variantes, mas duas coisas eu não vou deixar de fazer: beber um bom carmenère e comprar algumas garrafas de Carta Vieja, produto típico da região da minha avó e da minha mãe.
Não é um grande vinho, mas se é que isso é possível, posso dizer que o valor sentimental é enorme.

É possível que ao longo da viagem a gente consiga escapar para outras vinícolas, mas isso não é prioridade. O descanso e o prazer são.
A eles, minha mineira.

Gráfico: Revista VIP

quarta-feira, agosto 09, 2006

Pseudo-roteiro

Finalmente compramos as passagens e definimos as datas de chegada e partida do Chile.
Quer dizer, não compramos, apenas pagamos a taxa de embarque já que estamos viajando com nossas milhas da TAM, enquanto a companhia não resolve aproveitar a quase falência da Varig e arrancar ainda mais o couro dos passageiros.

Saímos de São Paulo no dia 09/09 e voltamos para casa em 02/10.
Serão mais de 20 dias na terra natal e desta vez queremos fazer turismo de verdade.
Nada de ficar amarrados aos parentes e só fazer o que eles indicam.
Queremos conhecer lugares novos e experimentar coisas inusitadas, por isso decidimos mais ou menos nosso roteiro de viagem.
Ainda temos que acertar detalhes de transporte e hospedagem, mas a brincadeira deve seguir mais ou menos por aqui: São Paulo, Santiago, Valle Nevado, Concepción, Chiloé, Puerto Natales (Torres del Paine), Concepción, Santiago e de volta a São Paulo.

Definida a espinha dorsal da viagem, agora temos que conversar com os parentes, consultar alguns sites (este, este ou este, por exemplo) e verificar as melhores formas de cumprir o roteiro.
Mas por mais planejamento que façamos, uma certeza não nos abandonará: surgirão surpresas e mudaremos muita coisa, mas a diversão sempre estará presente.

Na semana que vem informo mais detalhes.

segunda-feira, julho 31, 2006

Coletivo

Como o Juntando Estórias e o Minha vida em vinil tiveram seus visuais renovados hoje, resolvi fazer o mesmo como o Seguindo Gulliver.

Espero que isso torne a leitura mais agradável.

sexta-feira, julho 28, 2006

Escapada

Acabei de confirmar com meu chefe as datas das férias deste ano.
Fico fora de 11/09 até 16/10.
Consegui essa maravilha por conta de férias e dias em haver. Sempre mantive meus registros em dia, mas nunca pensei que pudesse mesmo descansar todo esse tempo.

Como minha mineira é dona do nariz, vamos para o Chile com tranquilidade e vamos nos arriscar um pouco mais do que da última vez.
Temos que fazer as reservas e definir o roteiro com urgência para não ter surpresas desagradáveis.
Como são muitos dias (40), é provável que passemos não mais do que 20 na terra natal e que deixemos os demais para descansar em casa ou curtir uma praia mais tranquila.
Sempre quis levá-la até Ilhabela e talvez agora seja a nossa grande oportunidade.
Vejamos como evolui o roteiro.

sexta-feira, junho 02, 2006

Novo destino

Já decidimos para onde vamos nas próximas férias!
Por conta do nascimento do sobrinho, o pequeno grande Bruno, e da saudade do colo da avó materna, decidimos voltar ao Chile e explorar um pouco mais a minha terra natal.
Decidimos não. A minha mineira decidiu, contou para todo mundo e, no final, me contou também.
Apesar da surpresa, era uma decisão óbvia e desejada há tempos, principalmente por ela.

Ainda não decidimos o roteiro, mas é certo que passaremos alguns dias com a minha velha avó, que visitei em 2004 achando que seria a última vez, e a minha irmã, para conhecer o sobrinho que nasce por estes dias.
Se sobrar tempo e dinheiro, vamos até Chiloé e Torres del Paine, mas isso a gente decide nos próximos meses, já que nossa viagem acontece só em Setembro.

Vamos ver o que o vento nos traz e para onde ele nos leva.
O importante é não ficar parado.
Y Viva Chile, mierda!

domingo, setembro 11, 2005

Hasta luego, porteños

O dia de ir embora de algum lugar não costuma ser dos mais felizes, mas no nosso caso foi um pouquinho diferente.
Já estávamos meio cansados de tanto andar e com uma bruta saudade do nosso castelo.
Pensávamos que a lua de mel era legal também por que tinha data para acabar e foi mais ou menos com esse espírito que acordamos doentes pela comilança do dia anterior e começamos a fazer as nossas malas.

A van veio nos buscar um pouco depois do horário combinado, mas já havíamos sido avisados disso, o que apazigou nossos espíritos ávidos por respirar novamente o ar poluído da Paulicéia.

Infelizmente, o trajeto de volta foi bem mais demorado do que o da ida.
Novamente éramos o primeiro casal da fila, mas quando se trata de ir até o aeroporto, isso não constitui exatamente uma vantagem.
Com paciência e bom humor aguentamos bem o trajeto e chegamos tranquilos ao aeroporto, bem a tempo de pegar uma fila de umas 100 pessoas igualmente ansiosas para voltar ao Patropi.
Como não havia outra coisa a fazer, ficamos na fila, pagamos as taxas de embarque em cash (eles não aceitam cartões de crédito), comemos um sanduba, solicitamos o reembolso das taxas para turistas e ficamos como bobos tentando achar o portão certo, já que eles não se preocuparam muito em divulgar a informação do reposicionamento da aeronave, que por sinal estava com cerca de duas horas de atraso.

Aqui vale um registro importante: durante as compras, seguimos a indicação do nosso guia e visamos as lojas que possuíssem o sistema Tax Free. Na prática isso significa que você compra alguma coisa, preenche um formulário, entrega esse formulário no aeroporto e tem o direito de receber de volta uma porcentagem da sua compra por não ser residente no país.
Eu acho até interessante essa idéia, mas não recomendo fazer o que nós fizemos: achando que estávamos na Europa (onde isso funciona de verdade), pedimos o reembolso no cartão de crédito e perdemos a oportunidade de já receber o benefício em cash.
Como a besteira já estava feita, só no restava esperar e torcer para que o fato de ser uma filial terceiro-mundista não prejudique a qualidade do trabalho da Mastercard.

Depois de mudar duas vezes de portão de embarque, saímos de Buenos Aires com um monte de sentimentos e vontades: saudade de casa, lembranças dos jantares maravilhosos e vontade de voltar.
Só Ele sabe quando isso vai acontecer, mas acho que a gente pode dar uma força.

Na chegada ao Brasil, a tia da minha mineira estava nos esperando com um certo bico devido ao atraso.
Como não estávamos mesmo com pressa, gastamos uns 15 minutos até que ela se lembrasse onde havia estacionado o carro lá em Guarulhos. Ainda bem que não estávamos em Chicago ou Nova Iorque.

Para terminar, resolvi fazer uma lista de impressões que ficaram da minha lua de mel e da nossa segunda experiência internacional.
Espero que elas sirvam para alguém meio indeciso sobre a capital dos portenhos:
- o hotel Claridge envelheceu bastante, mas ainda é bom e merece consideração;
- aqui também vigora a tradição de não cobrar ligações telefônicas feitas na manhã do check out;
- as argentinas são muito bonitas e estão sempre bem arrumadas, mas a esmagadora maioria delas costuma deixar a bunda em casa quando saem para trabalhar ou passear;
- o estilo "capacete" impera nas cabeças dos portenhos; barbeiro aqui deve morrer de fome;
- e finalmente: Buenos Aires é o máximo, apesar da assustadora quantidade de argentinos perambulando de um lado para o outro;

Ainda não dá para saber quando saíremos de casa de novo e quando voltarei a registrar algo por aqui, mas segue a vontade de documentar tudo, mesmo que só para refrescar as minhas meio combalidas memórias.

Aloha!

sábado, setembro 10, 2005

Templos

Não sei bem a razão, mas havíamos decidido que aquele seria um dia dedicado aos templos e aos símbolos da capital dos portenhos.
Depois de mais um café nocateante, partimos de táxi até o bairro de Nuñez e até o Estádio Monumental.

A casa do River Plate era mesmo impressionante. Apesar de bem diferente do Morumbi, deu para sentir a energia residual dos grandes clássicos locais e do título que a Argentina roubou, ops, ganhou aqui no Mundial de 78.
Este lugar, com gente saindo pelo ladrão, deve ser um enorme incentivo para quem se mata por um gol ou, apesar de raro, sente que representa um povo inteiro quando veste a camisa do time nacional.
Infelizmente não conseguimos visitar o estádio já que as visitas eram de terça a sexta (era um sábado), mas compramos um copo bonito na Rivermania, a loja temática do time, e decidimos voltar para o Centro.

Acabamos parando na Recoleta por recomendação do taxista.
Aliás, essa não foi a única dica daquele senhor rechonchudo e simpático que achava que os turistas (e seus dólares) eram um mal necessário para a combalida economia argentina.
Ele nos recomendou compras no distrito de Once (ali pertinho do Abesto), uma visitinha a Luján (a Aparecida do Norte deles) e um passeio pelo zoológico de Temaikén, no distrito de Escobar.
Como não tínhamos tempo para isso, resolvemos visitar a Basílica de Nossa Senhora do Pilar e exercitar mais uma vez a prática de rezar e pedir quando se conhece uma igreja nova.

Como o cemitério ela ali do lado, partimos em busca do túmulo da Evita em companhia de uma dezena de turistas das mais variadas partes do mundo.
Como somos prevenidos, estudamos um pouco a planta do lugar antes de sair atrás do tal túmulo, o que se revelou uma ótima idéia já que o cemitério era cheio de corredores irregulares e assimétricos.
Infelizmente, o tal túmulo não tinha nada de mais e ficava em um corredor bem estreito o que dificultava bastante as fotos.
Feito o registro, saímos de lá sem muita pressa e acabamos servindo de guias turísticos para mais de um brazuca que, seguindo a tradição de "dar um jeitinho" em tudo, estava mais perdido do que cego em tiroteio naquele lugar.

O vento estava pegando forte, por isso resolvemos voltar para o hotel para reforçar os casacos. Pegamos um táxi fedido, velho e dirigido por um tiozinho de aparência igualmente fedida e velha.
Apostamos mentalmente de onde vinha aquele cheiro ruim, mas felizmente chegamos ao hotel antes de conseguirmos provas conclusivas de um lado ou de outro.

O nosso próximo destino foi o Cassino flutuante, onde não se pode entrar com câmeras digitais ou celulares com câmera. Deve ter algo a ver com a segurança anti roubo, mas com tanta fumaça de cigarro, achei que era um despedício: câmera nenhuma conseguiria ver alguma coisa mesmo.
Ficamos ali, meio de bobeira, olhando o povo perder centenas de pesos em um minuto na roleta, a velocidade dos crupiês no 21 (se você piscar, perde o jogo) e o movimento frenético das velhinhas no caça níqueis.
Eu já estava a fim de ir embora - não gosto de cassinos, ou melhor, não gosto de ter limites para jogar -, mas a minha mineira queria arriscar uma fezinha.
Escolhemos um caça níqueis que parecia mais "honesto", colocamos uma nota de cinco pesos (sou pão duro mesmo) e começamos a brincar com as significativas apostas de 25 centavos.
A brincadeira durou uns cinco minutos e logo estávamos fora do fumacê e a caminho de Puerto Madero para almoçar.

Já eram mais de quatro da tarde quando chegamos a Madero e acabamos mudando de destino por sugestão do taxista. Queríamos ir a um lugar brasileiro, mas acabamos no Siga la vaca, uma mega-churrascaria que não tinha nada de típica, mas oferecia um buffet gigantesco por um preço razoável. E com bebida incluída.
Acabamos comendo e bebendo mais do que deveríamos, o que nos prejudicou bastante no posterior sono.
Apesar da minha mineira ter gostado, saí achando tudo muito pouco autêntico e preferido muito mais o La Estancia, onde se come menos e melhor.
Esse negócio de volume e velocidade é coisa de churrascaria brazuca, não portenha.
São os males da globalização.

Com tanta comida no bucho, não era de espantar que não conseguíssemos dormir e que acordássemos de madrugado meio acesos e com vontade de arrumar as malas para ir embora.
Aproveitamos para assistir ao Brazilian Day e ao Altas Horas na Globo e finalmente conseguimos dormir.

Era nossa última noite em Buenos Aires e já estávamos com saudade da nossa casinha, tão pouco usada até aquele momento.